A mãe que trabalha fora

M

Eu sempre disse aqui: sou uma privilegiada. Desde que virei mãe, tenho conseguido, com sucesso, passar bastante tempo com minha filha, primeiro por conta do home-office que fiz por mais de 1 ano, e depois por causa do desemprego. Nesse período, conheci cada fio de cabelo da Valentina, cada mudança de humor. Antevia as reações, sabia como ela se comportaria, na maioria dos casos. Nesse tempo, pude acompanhar bem de perto cada fase, curtindo cada uma delas. Hoje com 2 anos e 8 meses, ela vê agora as coisas começarem a mudar.

Isso por que (contando em primeira mão) eu arrumei um emprego.

 

Trabalhar-fora.jpg

Comemorem comigo!!!!!!

 

Sim. E isso é maravilhoso. Não à toa, o emprego veio como presente. No dia do meu aniversário, 23 de agosto, eu recebi a oferta de trabalho. Enfim, estou muito contente, realizada, feliz. Mas a parte mãe que vive em mim, e que é uma grande parte, fica com o coração apertado de deixar minha filha longe de mim por quase 12 horas por dia. É muita coisa para quem costumava passar todo tempo juntas, outrora (meu Deus, já estou usando linguagem arcaica. Me segurem, que esse relato vai ser emocional demais). 

E aí entra a discussão eterna a respeito da maternidade: ficar em casa e cuidar do filho ou trabalhar fora?

Sei que muitas – talvez a maioria – nem consiga fazer essa escolha. Trabalhar é só a forma mais simples e digna de conseguir dinheiro para viver. Todo mundo precisa dele, do embuste do dinheiro, não tem jeito. É com ele que a gente se mantém, sobrevive, nesse sistema capitalista que vivemos. No entanto, talvez seja senso comum essa culpa que toda mãe que trabalha fora carrega. A impressão que dá é que é uma espécie de abandono, sei lá. Não adianta o racional da gente falar que tem que trabalhar, que vai ser bom para a criança e tudo mais. Tem uma parte nossa que sempre acha que tinha é que grudar na cria, pelo menos até ela crescer.

Eu gosto de trabalhar. Sou uma virginiana típica. E todo mundo sabe que gente do meu signo tem trabalho no sobrenome. Gosto, gosto, gosto. Me sinto útil, me sinto capaz, me sinto realizada. Ainda mais por que consigo fazer o que amo, que é escrever. Enfim, sem dúvidas no meu coraçãozinho, desde sempre, de que o trabalho é essencial na minha vida.

Work

Já dizia Rihanna…

 

Mas também é essencial no meu coração de mãe ter um tempo escrito “pertence à Valentina” no calendário dos meus dias. Não consigo me sentir mais completa, sem olhar aqueles olhinhos amorosos, aquele sorriso de criança, aquela carinha de felicidade, quando está comigo. Por ser tão essencial, não nego que estou sofrendo por ver minha filha somente de manhã, e depois só à noitinha. Apesar de ficar no fim de semana com ela –  e o fim de semana é DELA, não abro mão – ainda sinto que estou em falta. E é nesse momento que bate aquela culpa.

E a culpa só se potencializa quando noto que, desde que voltei a trabalhar fora, a Valentina tem ficado mais triste, no período que não está comigo. Ela até adoeceu. Como acredito muito que o estado emocional influencia o físico, tenho plena convicção de que o estresse da separação foi um dos grandes responsáveis por derrubar a imunidade dela, causando a gripe forte que ela desenvolveu.

Agora ela já está melhor e eu começo a entender que nós duas vamos ter que nos acostumar à nova dinâmica. Sei, e acredito, que é importante, conforme a criança cresce, ela conviver com outras pessoas, fazer amigos, ir à escola. Mas filho precisa da figura da mãe perto. Digo isso, não somente como a mãe da Valentina, mas também como a filha da Dona Raimunda. Eu, quando criança – e mesmo depois de grandinha – contava os minutos para minha mãe voltar para casa. Ela sempre trabalhou, e eu logo entendi que tinha que ser assim, no entanto quando tinha minha mãe perto era tudo sempre tão melhor.

Talvez por isso eu tenha sentido tanto. É como se eu conseguisse sentir o que minha filha estava sentindo. Eu via pelo olhar, pela cara fechada dela toda vez que eu a levava para ficar com a “babá”. Eu percebia pela carinha de sono com a qual ela me recebia, só esperando minha chegada para fechar os olhinhos e dormir. Eu senti a tristeza dela, e somei à minha. O resultado todo é que nós sofremos essa separação, como tinha que ser.

Sei que as coisas vão se encaixar, que a gente vai se acostumar, e que, de certa forma, é bom para ela ir cortando o cordão umbilical, aos poucos. Faz parte da vida. Todo mundo fala isso, né? Que a gente cria filho para o mundo.

Mas nada tira da gente essa sensação de que falta uma parte nossa, toda vez que estamos longe dos nossos filhos. E o tempo vai correndo tão depressa, que a gente mal pisca o olho, e a criança cresce. E daí o relógio impiedoso soa apenas para perguntar, sem palavras, se a gente conseguiu aproveitar o tempo que ele deu.

Eu espero conseguir aproveitar muito bem o tempo que tenho para ficar com minha filha. Porque quero saber responder ao relógio, lá na frente, que eu soube dar qualidade de afeto em meio a agenda lotada de compromissos e de decisões.

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2 comentários sobre “A mãe que trabalha fora

  1. Isabela disse:

    Oi Cíntia! Dois parabéns pra vc… Um de aniversário e outro por ter conseguido seu emprego… Da um aperto no coração deixar sua filha tão pequena mas vc teve mais oportunidade do q eu de estar com a própria filha… Pra mim foi muito duro pois minha filha mal sabia andar… E ter q se virar com outras crianças… Minha filha foi muito forte e agradeço por Deus estar sempre presente na vida dela rodeada com pessoas maravilhosas… Uma coisa q percebi q minha filha sabe como foi meu dia… Quando trocamos olhares ela logo me dá um abraço como se entendesse… E assim q descobri pq ela ficava doente… Criança tem hora q é mais adulto q nós… Desejo muito sucesso no seu novo emprego e q sua filha consiga aproveitar muitas coisas boas na creche q olhos dela brilhem muito pra te iluminar sempre…

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    • Cíntia Ferreira disse:

      Obrigada, Isabela, pelos parabéns duplo! Eu fico com o coração apertado, mas sei que é bom para ela e para mim também. Assim como você, também sinto nela essa compreensão. O importante é que a gente ama muito nossos filhos e quando estamos presentes, estamos mesmo, de verdade. Criança percebe tudo, capta nossa alma. E também consegue sentir nosso amor mesmo longe. Isso que me conforta, e espero que conforte você também. Bjs,

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