Sobre fazer as vontades dos filhos

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De vem em quando, o mundo da maternidade da mídia nos presenteia com alguma notícia curiosa, impactante ou ambas. Recentemente, não foi diferente. Apareceu aí uma news de que uma mãe brigou com uma conhecida, porque a última não deixou o filho da primeira brincar com os itens de uma coleção. Antes que me perguntem o que eu acho (ninguém fez isso, mas vai fazer…haha), afirmo que não dá para avaliar corretamente essa pequena história por que não conheço todos os elementos e nem sei como o troço procedeu de fato. Seria leviano, e nada produtivo. Prefiro sair pela tangente (de vez em quando, é bom) dizendo que não vejo certo nessa história, e que a criança, a meu ver, é uma vítima. Ponto.

No entanto, essa notícia me lembrou de algo que eu queria falar aqui já há algum tempo. Sobre essa coisa de fazer as vontades da criança ou não, até que ponto ceder, como usar corretamente o não milagroso, e o que é “mimar”. São muitos dilemas na minha cabeça reflexiva, pois minha pequena tem dois anos e meio e me testa o tempo todo, como todo baby adolescente costuma fazer (já falei sobre adolescência do bebê aqui). Acontece que geral diz que Valentina é uma criança encantadora e boazinha. Que não faz raiva para ninguém. No entanto, já ouvi de uma pessoa que estou a mimando por dar afeto e atenção demais, ser muito boazinha, essas coisas. E tudo isso me fez refletir sobre esse troço todo de fazer as vontades dos filhos.

Primeiro de tudo, vamos colocar um limite: não estou falando aqui de bebês, que têm NECESSIDADES, e não vontades. Não existe essa de bebê fazer manha ou birra para conseguir o que quer (falei disso aqui), tudo neles é necessidade, inclusive essa vontade louca deles de só querer colo. O que vou falar aqui diz respeito as crianças, já mais espertinhas, falantes, andantes, cantantes e – algumas vezes – irritantes. É sobre elas que quero falar. Sobre quais vontades devemos atender e quais não. Por que essa linha que separa uma da outra, no hardcore do dia a dia é bastante complicada de reconhecer.

Peraí, vou colocar outro limite: não estou falando aqui de deixar a criança tocar fogo na casa, enfiar o dedo na tomada, e por aí vai. Isso é sabido que NÃO PODE. Nenhuma mãe é louca de ceder aos desejos irracionais que os pequenos costumam ter. Quando se trata de segurança, práticas inaceitáveis – como bater, xingar, etc – não tem discussão. O não tá lindão ali, pronto para ser falado.

VOntades-filhos

 

 

Estou falando sobre todas as outras coisas. Por exemplo: seu filho quer tirar a blusa de frio, naquela quentura de primavera, que, porém traz uma leve brisa adocicada que arrepia nossos pelinhos (Sou poeta, já disse). E aí? Deixa ou não deixa?Vou contar outra historinha curta para você entender o que estou falando.

Minha filha, desde o primeiro dia da maternidade, sempre foi calorenta, a enfermeira que me ajudou por lá disse isso para mim e observei que era verdade por que nunca vi bebê suar tanto como ela. Vez ou outra, ela me premia com esse pedido de que quer ficar com a camiseta da princesa que está por baixo do agasalho. Noto que ela faz isso quando realmente não está muito frio. E aí? Pode ser um pedido legítimo, ela pode estar com calor ou pode ser só uma gracinha, sei lá. Daí, santa incoerência, uso meu humor do dia para decidir se deixo ou não ela tirar.

Talvez seja um exemplo ruim esse que dei. Você pode pensar, por exemplo, que sou a mãe que deixa a filha pelada no inverno, e não é isso. Estamos falando do quentinho da primavera, lembra? Pois bem, vou dar outro exemplo, mais difícil ainda.

Quando vocês estão brincando na sala, de sei lá, massinha, e sua criança pede para buscar o boneco que está lá no quarto, porque quer brincar com ele. Sim ou não?

Muita gente pode dizer:

— Mas é claro que sim! Que exemplo idiota! A criança só quer brincar!

Mas têm muitas pessoas, MUITAS mesmo, que acham que eu não devia ceder nem mesmo nessa situação.

Ahh!

Te peguei!

Era onde eu queria chegar.

Todo mundo fala da importância de dar limites para as crianças, mas eu tenho para mim que esse troço de dizer não para nossos filhos é algo que faz parte visceral da maternidade, e do processo educativo. Quem cuida MESMO, está lá perto da criança, acompanha, conhece, não consegue simplesmente permitir tudo, por uma questão de sobrevivência e logística mesmo. Nem sempre, nós, adultos, estamos disponíveis para nossos filhos, nem sempre os pedidos deles são razoáveis. Toda mãe comprometida com a educação do seu pequeno pensa na importância de ensinar que existem regras, horários, etc. Além disso, nem sempre a gente está num bom dia para ser só flores e arco-íris.

 

Gato

Até mesmo os gatinhos lindos ficam bravos!

 

Minha teoria é de que permissividade não combina com maternagem ativa, com cuidar dos filhos de verdade. Mães que ficam no intensivão do amor e da dor de educar uma criança usam o “não” sempre que necessário, porque ele faz parte da vida. Essa coisa de permitir tudo (essa é minha outra parte da teoria) é coisa de mãe e pai desligadão, desconectado dos filhos, que usa a ausência como bode expiatório para deixar a criança tocar fogo na casa, sei lá. Já que esses pais nunca estão por perto, mal conhecem os filhos, eles lidam com a culpa dessa forma, sendo eternamente sim para tudo, e comprando coisas, etc. Mas essa minha visão vou falar mais detalhadamente em outro post.

Para esse, a discussão é sobre essa linha entre vontades X necessidades, que o  Paizinho, Vírgula falou tão bem nesse vídeo. O que quero dizer aqui é que não podemos nunca confundir afeto com permissividade. E nunca achar que dar carinho, ouvir a criança e respeitá-la é mimá-la, porque não é. Como todo mundo que acompanha esse blog sabe, eu prego a criação com apego. E uma das coisas mais importantes, nesse sentido, é ter empatia no trato com os filhos.

Vamos a última reflexão do dia, porque hoje o negócio tá pegando. Dizem que estamos em uma geração mimimi e que isso vai gerar consequências terríveis lá no futuro, porque hoje os pais não podem nada, tudo tem estudo, teoria, etc. Acontece que, olhemos um pouco para trás, para as gerações anteriores, que foram criadas na base do cinto, em sua grande maioria, em uma época que criança não podia nem falar com adulto, que dirá ter seus desejos respeitados. Em um período da humanidade em que os limites eram ditados como se os pequenos todos morassem em um quartel de Exército. Evidentemente, estou generalizando. Se você é de gerações anteriores e não viveu nada disso na infância, meus parabéns, eu também não vivi. Fui criada com muito afeto e respeito, apesar das dificuldades. No entanto, essa é uma generalização importante para explicitar uma coisa.

Olha a cara dessa nossa humanidade, o tanto de gente mal resolvida, corrupta, sem caráter, que tira merenda de criança  e joga água fria em morador de rua, em pleno inverno. Olha essa humanidade, e me diz se essa educação rigorosa e sem entender o que é uma criança produziu. Olha essa humanidade sem amor e me diz se o que falta no mundo é mais rigor e truculência.

Como disse centenas de vezes nesse post, o não é um troço mágico, faz parte da vida, nos ensina a lidar com as frustrações, nos ensina limites, nos ensina que, ao contrário do Jack de Titanic, não somos reis do mundo nada. O que quero com esse post é justamente ponderar sobre esses “nãos” sem sentido, como esse de não dar colo, ou de não ouvir o que a criança tem a dizer. O não existe para ser usado com sabedoria, nós, mães, temos que escolher nossas batalhas, muitas vezes, porque cuidar de uma criança é um troço muito difícil mesmo. Gastar o não é quase tão ruim quanto não usá-lo nunca, e gera aquela criatura que grita, grita, grita com os filhos e eles nem ouvem mais, porque sabem que é aquele não de sempre, sem sentido, sem explicações, etc.

 

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Não! Por que não.

 

Temos que falar o não com sabedoria, explicando porque ele está sendo usado, ponderando se ele é necessário, fazendo, sempre que possível, de maneira firme, mas sem dramas, etc, etc. Só assim a criança vai internalizar essa coisa toda de limites e frustrações. Do contrário, ela vai apenas achar você uma chata e fazer o contrário do que você disser. Estou farta de ver adultão, que foi criado no cinto, mais mimado do que qualquer pequerrucho, justamente por que esse não foi feito de modo automático e para tudo. E por que pessoas são formadas por uma série de fatores e visão de vida não é algo que a gente implanta na criança, tal qual um chip.

As crianças precisam de explicação o tempo todo. E nós, mães e pais, estamos aí para isso. Educar dá trabalho mesmo. Eu mesma, vez ou outra, questiono minha maternagem, não a respeito do afeto, mas a respeito dos erros que a gente comete todo dia, porque não tem como ser diferente, já que somos todos imperfeitos.

A maternidade pode ser uma ótima forma de crescer como pessoa. Mas isso é assunto para outro post. Esse aqui eu já terminei. Bjs.

 

 

 

 

 

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