Terceirizar os filhos é sempre uma péssima escolha

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Na época da minha gestação, fazia planos de que, ao voltar da licença maternidade, iria colocar a Valentina em um berçário. Pronto, acabou! Não gostava muito da ideia de babá, e nem pensava jamais em parar de trabalhar. Na minha cabeça era tranquilinho: eu ia ali ter um bebezito, e já voltava ao mercado de trabalho. No entanto, bastou nascer para eu ver que teria bastante dificuldade de seguir meu cronograma perfeito de uma carreira que estava só começando. A dificuldade era que eu tinha me tornado mãe, amava aquela pequenininha mais que tudo nesse mundo, e tinha uma responsa tremenda, que era minha, quase que totalmente.

Por que estou dizendo isso? Há um tempo li um texto da Rita Lisauskas – que eu adoro, considero uma irmã de mentalidade materna, só que com muito mais grana e fama…hahaha – abordando a questão das escolas que fazem TUDO pelos pais, em troca de, evidentemente, uns dinheirinhos de gente bem rica. Enfim, nesse material ela fala a respeito do quanto estamos terceirizando nossos filhos, e isso me acendeu  a luzinha da vontade de falar sobre isso também. Lembrei que simplesmente tive uma tremenda dificuldade de deixar minha pequena aos cuidados dos outros,  quando retornei ao trabalho. Berçário então, nem se fala. Logo desconsiderei pela grande verba que eles exigem e também por que não queria deixar a Valentina com desconhecidos.

Nesse sentido, tive MUITA, mas MUITA sorte mesmo. Pois meu retorno ao trabalho, como já disse antes aqui neste blog, foi no esquema abençoado chamado “home-office” parcial. Ficava alguns dias em casa, e dois dias da semana eu ia para o escritório trabalhar meio período. Para mim foi a situação ideal para eu continuar cuidando e criando minha pequena, como eu queria. Depois disso, veio o desemprego, que não foi lá a sétima maravilha do mundo, mas que me deu a vantagem de ficar em tempo integral com ela. Hoje, após 2 anos e meio, posso dizer que o vínculo que construí com minha pequena está muito fortalecido, e foi construído no dia a dia, nas dificuldades e delícias da rotina. Hoje posso dizer que conheço, mais do que qualquer outra pessoa (por que é assim que eu acredito que deve ser) a minha filha, cada comportamento, atitude ou mania.

 

Terceirizar-filhos

Bora todo mundo parar de trabalhar, então?

 

Agora, veja bem você que me lê: não estou pregando que todas nós abracemos a ideia de SÓ cuidar dos filhos. Óbvio que não. Eu amo trabalhar, acho importante, necessário, edificante e tudo mais. A menos que a mãe goste da ideia de ficar em casa e cuidar dos filhos em tempo integral, a questão de trabalhar ou não nem chega a ser uma questão. Além de edificante, trabalhar é vital, tendo em vista que vivemos em uma sociedade capitalista, etc, etc, etc.

No entanto, quando se trata de terceirizar os filhos, um termo bem forte e pesado, que nenhum pai e mãe gosta de aceitar como escolha; o que está em jogo é aquela coisa de deixar que os outros façam TUDO e você, mãe ou pai, não faça nada. Isso é terceirizar, de fato. O excesso. Aí entra em cena a escola em tempo integral, que emenda no balé, judô, natação e tudo mais. Aí entra em cena a babá que é mais mãe do que a própria mãe, e que não pode nem tirar férias, porque a criança que ela cuida adoece (tem uma matéria legal do UOL mostrando relatos de babá a esse respeito). Aí entra em cena o pai ou a mãe que não conhece o próprio filho, que vai deixando passar a fase mais importante na vida de um ser humano, que é a infância.

Filhos terceirizados são como filhos abandonados, pois não têm esse referencial essencial na vida de todo mundo, que é o pai, a mãe, a família. Por mais que a criança goste da babá, ou sei lá, da escola, nada substitui o vínculo afetivo de um relação entre mãe/pai e filho. Além disso, quando os pais não conseguem estar presentes na vida dos filhos, a tendência é que eles não imponham tantos limites, que queiram remediar essa ausência comprando coisas, sendo permissivos, o que é grave, todo mundo sabe disso. Para a criança fica, evidentemente, aquela sensação de que ela não é importante, tendo em vista que aos olhos sábios delas a atenção é um excelente medidor de afeto. E quem vai dizer quem não é?

Infelizmente, o mercado de trabalho não oferece o acolhimento necessário para que os pais tenham tempo de serem pais, pelo menos no Brasil. Uma licença maternidade de quatro meses é uma coisa irrisória, não dá conta de oferecer à criança o tempo com a mãe que ela precisa, principalmente, nos primeiros anos. E da licença paternidade, o que falar? Só mais um exemplo da cultura machista que acha que cuidar de filhos é coisa de mulher, apenas. No documentário que eu assisti “O Começo da Vida” e que já fiz resenha aqui existe essa reflexão. Do quanto é essencial, e ninguém percebe, dar mais atenção as necessidades de afeto das nossas crianças e frear essa ganância de achar que bom funcionário é aquele que passa 12, 13h trabalhando.

 

work, work,

Nem sempre precisa ser: work, work, work, work, work, já dizia Rihanna

 

É na infância que formamos as próximas gerações, é nessa parte da vida que deveríamos nos esforçar mais. Criança bem amada, bem cuidada, segura e fortalecida nos limites e regras, se torna um adulto melhor, que pode fazer alguma diferença positiva no mundo, que pode dar ao mercado mais criatividade, inovação, vontade, dinamismo, etc, etc.

Temos sim que trabalhar. Isso é inquestionável. Mas será que quando nos tornamos pais e mães não é o momento exato de reavaliar essa busca desenfreada por melhorias na carreira e focar no que importa: no filho que espera ansioso pela chegada dos pais do trabalho, e não consegue entender por que eles nunca têm tempo para brincar um pouco, conversar, olhar no olho. Minha opinião é a de que a maternidade/paternidade, principalmente no comecinho, é a hora de priorizar o precioso tempo, que em outras palavras chama-se “vida passando” e dá-lo, de todo coração, aos filhos. E para tanto é necessário fazer escolhas profissionais mais modestas, deixar alguns planos para mais adiante, evitar, por exemplo, um trabalho que exija tantas horas extras, finais de semana e grandes deslocamentos. Sei que nem todo mundo consegue fazer essas escolhas, mas quando não dá para escolher o trabalho, dá para escolher a forma como vamos enxergá-lo e isso muda tudo.

Evidentemente, terceirizar os filhos dá muito menos trabalho, e até não dá nenhum, dependendo da quantidade de coisas que os pais delegam. Mas tira da gente aquela coisa ótima chamada intimidade, irmã de alma do amor (desculpa, sou poeta, às vezes). Saber que conhecemos os nossos filhos, que temos com eles vínculos afetivos indestrutíveis é uma felicidade que nenhuma promoção de nenhuma grande empresa do mundo vai conseguir alcançar. Ter filhos dá um trampo do cão, mas é a gente que tem que fazer.

Bjs.

Ah, tem um material ótimo sobre isso na coluna da Cristiane Segatto. Esse aqui ó.

 

 

 

 

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4 comentários sobre “Terceirizar os filhos é sempre uma péssima escolha

  1. Claudine Bernardes disse:

    Que legal que você conseguiu conciliar trabalho e maternidade. Eu faço o mesmo. Tento me organizar para ter meus filhos em casa e trabalhar ao mesmo tempo. O meu filho Alejandro tem 7 anos e a minha pequena tem 6 meses, assim que não é fácil. As vezes trabalho pela madrugada, porque para escrever necessito tranquilidade. Esse ano está sendo um grande desafio para mim. Nasceu a Clara, tres meses depois lancei meu primeiro livro infantil aqui na Espanha, e agora estou preparando o lançamento do livro no Brasil… é difícil. Mas não troco nada nesse mundo pelo prazer de acompanhar o crescimento dos meus filhos, por ser a principal responsável pela educação deles. Um grande abraço Cíntia. 😉

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    • Cíntia Ferreira disse:

      Sim. Eu me sinto abençoada por estar conseguindo ficar com minha filha esse tempo todo. Bate até uma tristeza de pensar que as coisas podem mudar, mas tudo bem, a gente se adapta. Eu também faço muita coisa à noite, pois é a hora do sossego para as mães…rs. Bjs, Claudine!

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  2. Isabela disse:

    Oi Cíntia! Concordo com vc em questão d deixar a responsabilidade de cuidar dos filhos com outras pessoas… Meu coração aperta só de ouvir o depoimento das babás… Filhos tão carentes de amor de mãe e pai… Realmente o mundo precisa mudar, começando pelos pais… Vejo muitas pessoas se achando com família perfeita mas q no fundo falta um amor de família, mas quem sou eu pra ficar julgando ne?!… Q Deus sempre ilumine cada vida desse mundo com mais amor… Obrigada Cíntia por ser dedicada a sua filha, ganho força te admirando… Aprendi muito sendo mãe, mas sei q ainda tenho a aprender pq curso de mãe é pra vida toda… Kkkk gostaria de fazer uma sugestão sobre o tema religião ou filosofia para crianças… Gostaria q minha filha tbm aprendesse um pouco sobre essa parte…

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    • Cíntia Ferreira disse:

      Oi, Isabela! Acho que o que falta é entender que criança precisa da presença dos pais. E que nós devemos fazer o possível para dar aos nossos filhos esse tempo. Obrigada por acompanhar o blog e ser tão participativa. Já anotei sua sugestão, logo mais faço um post sobre o tema. Bjs.

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