A imaginação das crianças (e como isso pode mudar a visão de vida dos adultos)

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Não sei bem em que momento isso acontece, mas há uma fase em que a vida, a minha, a sua, a de todo mundo, vai ficando meio assim, sem imaginação. Parece que tudo é chato, tudo é obrigação, tudo é compromisso. Viramos adultos e toda aquela diversão que imaginamos existir na maturidade vira coisa da nossa cabeça, utopia de uma mente que um dia foi fértil. E a gente só percebe que ficou chato quando observa uma criança: ah, como elas são felizes, criativas, descoladas, espertas, simples. 

Em que momento a gente perde essa gama de qualidades? Dia desses, por exemplo, minha filha viu uma peça dessas que parece uma dobradiça de porta, mas não é. Não sei o nome daquilo, juro que até tentei pesquisar no Google, mas sem saber identificar o que procura, fica difícil de achar, certo? O que acontece é que ela transformou essa pecinha em um carrinho e ficou brincando lá, fazendo bi-bi. Eu achei aquilo tão demais. Foi nessa hora que refleti sobre como a imaginação das crianças é a maior responsável, ou uma das maiores, por fazer qualquer coisa ser legal. Isso até tem nome, é olhar com cuidado, olhar de novo, reparar, como bem diz Saramago em seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”.

E essa observação peculiar de criança é uma das coisas mais lindas que a gente pode ver nesse mundo. Não há nada banal na infância: a Valentina já transformou uma bola desmontável em capacete e saiu andando no Sr. Caramujo de plástico como se fosse uma moto. Já transformou um controle remoto em telefone e atendeu a ligação numa boa, sem pestanejar, nem reclamar (eu sempre reclamo. Odeio atender telefone). Ela transformou, certa vez, um tambor de plástico do Pocoyo em chapéu e olha que ficou lindo! Tudo para ela pode virar um belo adereço a ser usado na cabeça: até minha necessaire já virou a última moda no quesito chapéu.

Agora, por exemplo, ela está na fase de gostar de montar. Foi ela a responsável por abrir minha mente para o tanto de coisas que a gente consegue fazer com um Lego. No começo, minha criatividade só me permitia fazer um carro simples de quatro peças e olhe lá. Hoje já fiz castelo, robô, mesa, cadeira, colher, janela, avião, barco, e um monte de outras coisas mais. Ela foi além e fez as pecinhas de comidinha. Colocou no balde de plástico que comprei quando fomos para a praia e usou a colher de brincar na areia para mexer o grande banquete que ela imaginava fazer.

Claro que eu desde sempre entro na brincadeira. Acho que rejuvenesço uns vinte anos, por que eu viro criança também. Faço vozes, invento histórias, milhões de caretas e músicas autorais ou não. É difícil resistir e não brincar quando sua filha “finge” que perdeu a bola e começa a chamar por ela, como se a danada fosse responder. Ou quando ela pega a Minnie de pelúcia e coloca o canudinho da garrafinha para que a boneca beba suco também. Difícil não morrer de amor quando sua filha vira uma piscina de plástico de ponta cabeça e faz de conta que é uma cama. Foi assim que reaprendi a olhar o céu. Um dia peguei uma almofada e deitei no chão da minha varanda. Ela fez igual. Virou um hábito.

De vez em quando, ela joga todas as almofadas no chão (minha mente virginiana enlouquece um pouquinho nessas horas) e faz delas um super pula-pula. Pega o polvo de pelúcia e vai interagir com ele, dando o livro como sugestão de atividade ou deixando o coitado do molusco em outro cômodo, fazendo de conta que o bichinho vai dormir fora do quarto naquele dia. As situações mais triviais, como recolher a roupa e guardar, ela transforma em diversão, pegando minhas roupas tão fashion (ironia nível hard) e pedindo para vestir. Fica uma graça, claro. Mas eu sou suspeita para falar. Filha minha, roupas minhas.

Olhando-a ser tão criança quanto qualquer outra me pergunto em que momento que a gente para de ver magia na vida. Seria interessante que os cientistas descobrissem quando isso acontece, para que a gente evitasse esse momento. Acho que todo mundo tinha direito de ver a vida com esse olhar. Seria tudo tão colorido e diferente a cada hora que acho que a gente ia deixar de perder tempo reclamando que nossa vida não presta.

Mas é claro que essa descoberta científica não vai acontecer. Mas talvez, bem de vez em quando, a gente podia bem fingir que tem magia até no trivial. Isso pode salvar muita gente de terapia, quem sabe? E o mais importante, pode evitar essa grande quantidade de infelicidade que anda solta por aí.

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