Precisamos falar sobre desfralde

Desfralde

O que vou falar aqui não saiu da minha cabeça, é fruto de um trabalho lindo da Laura Gutman (já falei cem milhões de vezes dela aqui. É aquela psicoterapeuta familiar argentina maravilhosa, que tem um livro maravilhoso, com o título maravilhoso de “A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra”). Nesta obra que menciono o tempo todo aqui no Blog, tem um capítulo que fala sobre o “Prazer das crianças, censura dos adultos”. Um dos tópicos do capítulo fala exatamente sobre desfralde.

Esse assunto muito me interessa, pois a Valentina fez dois anos e já comecei a ouvir as marchinhas de palpites e cobranças sobre o tema (fiz uma referência carnavalesca, apesar de não gostar muito de Carnaval. Tudo bem). Além dessa questão tão essencial, as pessoas também adoram opinar sobre o desmame dela. Claro que minha vontade é sempre falar que nada disso é da conta delas, mas sou pessoa educada, e na maioria das vezes reservo minha melhor cara de indiferença quando ouço algo. Mas acho importante pontuar algumas coisas a respeito, baseado em tudo que li, e principalmente no livro da Laura Gutman.

A essência de tudo o que ela fala nesse tópico é uma só: o controle do esfíncter – que é um músculo localizado nas partes baixas do nosso ser, responsável por controlar o grau de amplitude de um orifício, ou seja a saída do xixi e cocô – é um processo NATURAL. Como tudo que envolve o ser humano, cada um tem um tempo para estar pronto para algo. Não sei de onde veio essa coisa de que criança com dois anos já tem que desfraldar, mas o fato é que pegou. E é assim, como bem diz Laurinha, que “criamos um problema”.

Se a gente coloca na cabeça que a criança vai sair das fraldas quando estiver pronta para isso, principalmente quando souber controlar o esfíncter, muita dor de cabeça pode ser evitada. Do contrário, se a gente estipula que aos dois anos o pequeno vai ter que desfraldar de qualquer jeito, é bom estarmos todos preparados para uma avalanche de escapadas, xixis no tapete, cocô embaixo do sofá, criança perdendo totalmente a auto-estima cada vez que a mãe diz que “ela faz de propósito” e por aí vai.

Segundo a autora, é possível observar que a criança está pronta para desfraldar, em média, depois dos três anos, às vezes até um pouco mais. E que o fato dela falar “xixi” e “cocô” antes disso não quer dizer nada, a não ser que ela aprendeu a falar essas palavras. O controle do esfíncter, o processo de desfralde é demorado mesmo, como tudo que envolve humanos. Tirar as fraldas da criança antes que ela esteja pronta para isso significa tirar uma parte dela que não é só um pedaço de plástico/pano absorvente, mas o apoio, a segurança, o conforto.

tirar fraldas

Poxa, Cíntia! Obrigada pelas palavras lindas sobre a gente!

Existe prazer para a criança no contato com os próprios excrementos, e não há mal nenhum nisso. Isso é parte do processo de descoberta da criança. Não sou eu que estou falando, é a diva da Laura.

Não à toa, é mais comum do que se imagina (muitas famílias escondem) que crianças já maiores, de sete, oito anos, às vezes até adolescentes, sofram com escapadas de xixi, principalmente à noite. Esse problema chama-se Enurese e envolve várias explicações. Porém uma delas é o desfralde precoce. Gutman observou, nos seus casos de consultório, que muitas vezes a criança que tinha esse problema e voltava a usar fraldas, permanecia com elas pelo período que foi “tirado” delas, ou seja, o tempo entre a retirada precoce e o desfralde natural.

É interessante como esse tema do desfralde enche tanto a cabeça dos pais de preocupações. Agora vai minha opinião, eu acho que nós, mães, já temos preocupações demais o tempo todo envolvendo nossos filhos, seria legal se a gente conseguisse pirar menos com esses “problemas criados”. Segurar o xixi e cocô é algo que a criança vai fazer, em algum momento. Mais uma vez, vale enfatizar: quando ela estiver pronta.

Se piramos nessa coisa de desfralde e fizermos desse processo um treinamento militar, sem direito a pedir para sair, a chance da criança sofrer muito com tudo isso é bem grande. E ainda maior é o risco dela apresentar sequelas desse “problema criado”.

Por isso, venho, eu, apoiada por toda expertise da Laurinha, fazer um apelo: as crianças mostram quando estão prontas para algo. Aprenda a ler seu filho, que é único e você conhece tão bem. Tape os ouvidos para esses parentes chatos que pensam que estão ajudando, mas quase nunca ajudam de fato, e silencie o seu coração com a certeza de que esperar o tempo do seu filho é pensar NELE em primeiro lugar. Compreendeu?

 

 

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