Se eu não fosse mãe…

Ser-mae

Uma confissão. Antes de ser mãe eu não queria ser mãe. Mesmo nos primeiros dias da gravidez, a ideia da maternidade me soou assustadora, e no mau sentido. Imaginava o fim da minha privacidade e independência, o fim dos meus sonhos de viajar o mundo, de conhecer outras culturas. Quando descobri o positivo no teste de gravidez, parece que a minha carreira profissional ruiu junto com o som do meu choro (sim, eu chorei quando soube). Eu dizia aos quatro ventos, antes de me tornar mãe, que não queria esse “cargo” para mim. Imaginava o quanto deveria ser difícil, o quanto soava altruísta em demasia a ideia de cuidar, cuidar e cuidar de outro por décadas, deixando todo o resto em segundo plano.

Existem verdades nossas que o tempo se encarrega de levar embora. A minha convicção de que maternidade não era para mim hoje virou uma frase desbotada no tempo, totalmente desprovida de qualquer sentido. Porém, muitas vezes, na correria do dia a dia, ainda sobra um espaço da Cíntia, um espacinho, um cubículo mesmo, que sussurra, de vez em nunca, sobre como seria minha vida se eu não fosse mãe.

Ah, se eu não fosse mãe…quantos milhões de prêmios Nobel eu já teria ganhado? Quantos países eu teria conhecido? Quantos degraus eu teria avançado na minha idealizada carreira de jornalista? Quanto EU existiria no espaço da minha vida?

Sendo bem realista, provavelmente não teria ganhado prêmio Nobel nenhum, afinal quem sou eu para isso, certo? Eu também acredito que não teria saído do Brasil mesmo, tendo em vista que o dólar está caro, que o Euro está caro, que a Libra está cara. Talvez eu tivesse conseguido conhecer um outro Estado brasileiro, talvez não. Quanto à carreira de jornalista, quem está na cena sabe: ô profissão injusta! Nós ganhamos pouco, produzimos muito, e mesmo assim o pessoal ainda trata a gente como se texto fosse mágica: estalou o dedo, está pronto. Para que pagar direito? Possivelmente eu estaria ganhando pouco, trabalhando muito, e reclamando (ah, como eu gostava de reclamar na minha vida anterior à maternidade).

Mas…

Percebeu que eu só estou falando de vida profissional. E o resto? Quais eram meus anseios antes de tudo que eu acho que teriam sido bem diferentes se não fosse mãe? Olha, sou uma pessoa que faz muitos planos, mas já ganhei um pouco de bagagem para saber que vida pessoal é uma coisa bagunçada quase sempre: não à toa somos essa gama de dores de cotovelo, brigas familiares, reconciliações e auto-estima bipolar.

A vida tem uma lógica toda dela e lembra pouco uma planilha de Excel. Eu aprendi a ver isso apenas depois de adulta, após dois acontecimentos, principalmente: a morte da minha mãe e o nascimento da minha filha. Dois fatos que ocorreram no intervalo de pouco mais de três anos. Foi um período tão intenso que fui obrigada a tirar novas verdades da minha casinha de convicções eternas.

Se eu não fosse mãe não sei bem o que seria, mas quase posso arriscar que seria toda outra e toda eu mesma. Continuaria assim, meio tímida demais, apaixonada por livros, atualizando o diário compulsivamente das coisas banais que acontecem no dia a dia. Continuaria acreditando na vida, apesar de tudo. Continuaria assistindo maratonas de séries na Netflix, provavelmente com mais intensidade. Quase certamente não estaria casada, como não estou agora. Talvez eu estaria melhor na profissão, talvez não. Com certeza absoluta esse blog não existiria.

Acontece que a vida não é feita de “E Se” e quem para nessa viagem acaba sofrendo muito, tendo em vista que vida hipotética é sempre melhor que vida real. Acontece que eu acredito ser madura o suficiente para fazer as deduções que fiz acima. Se eu não fosse mãe, minha vida não estaria melhor, provavelmente estaria pior.

Isso por que a maternidade me trouxe uma fé na vida e um otimismo no futuro que eu tinha bem pouco antes. Também aprendi a lutar mais, a chorar menos, a desejar com todas as minhas forças, a não ouvir maldade alheia que nunca quer mesmo que sejamos nada de bom. A maternidade me deu um respiro de alma. Aprendi a ser criança de novo. Aprendi a amar alguém muito mais do que amo a mim mesma. Sei que existe aquele velho clichê de que a gente têm que se amar primeiro, e blá, blá, blá. Acredito no amor próprio, tenho um bem cultivado na minha alma, mas ele é bem diferente do sentimento que tenho pela minha filha. Por isso concluo que o amor que reservo a ela é sim a minha melhor parte.

E, apesar de não ter desejado com todas as forças a maternidade até os meus 29 anos, aprendi a ser feliz demais nessa nova condição. Por isso não paro muito para pensar na minha vida hipotética: na vida de não mãe. Esse sussurro que detalhei acontece apenas naqueles momentos angustiantes, cheios de cansaço, nos quais tudo o que nós, mães, queremos é uma cama quentinha, um banho demorado, um passeio sozinha para ouvir a própria voz.

Mães são pessoas. Eu sei, vivo dizendo isso, mas é por que acho que todo mundo esquece desse detalhe tão essencial. Sim, a gente cansa de ser mãe, mas só até o próximo sorriso, a próxima gargalhada, o próximo abraço dos nossos pequenos. Por isso nenhuma mãe se arrepende de ter filho. Não tem como se arrepender de uma transformação como essa.

Hoje penso e tenho quase certeza de que se eu não fosse mãe eu seria menos, não mais.

 

 

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3 comentários sobre “Se eu não fosse mãe…

  1. Isabela disse:

    Obrigada por ser mãe Cíntia, por suportar tudo e ainda dar força a quem precisa… Como eu, que se dedica ao máximo pela filha sem receber nenhum elogio de ninguém mas receber pedras sobre pedras por criar sozinha… Seus pensamentos são como meu desabafos sobre a sociedade quem impõe e julga os erros alheios como se os próprios fossem perfeitos e felizes…e nunca estendem as mãos pra confortar… Do q sinto muita falta… Sinto algo desmoronar dentro de mim toda vez q fico doente( cansada fisicamente e psicologicamente)… Sem ninguém pra cuidar de uma filha tão alegre e feliz… E ter q olhar pra ela e dizer, hoje não dá pra brincar… Mamãe tá triste… E ainda ela entende, como pode?… E adulto como não entende?… Agradeço de coração Cíntia por vc ser mãe da sua filha…

    Curtido por 1 pessoa

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