Relato de parto – Como foi o nascimento da minha filha

Relato de parto

Fecho os olhos e lembro: era madrugada de sábado, do dia 10 de janeiro de 2015, e eu começava a sentir as primeiras contrações. Era uma coisinha, um incômodo, nada de mais. Uma espécie de cólica mesmo. Chatinha, mal fazia cócegas. Esperei para ver se a dor aumentava, pois tinha lido e visto no curso que fiz que as dores do trabalho de parto vão aumentando de intensidade até chegar no ápice: na dor da expulsão, de quando o bebê está pronto  para nascer.

Eu lembro que assistia alguma série, só não lembro mais qual. Depois que veio a primeira dorzinha, desliguei do mundo, parecia que só existiam eu e minha dor. Tanto que não conseguia me concentrar em mais nada: nada de dormir, assistir ou comer. Na verdade, eu só queria ir para o hospital mesmo.

Comprovei que era chegada a hora mesmo: as dores foram aumentando, bem devagarzinho. Em conjunto, notei a saída do tampão mucoso, um muco que protege o útero da entrada de bactérias, prejudiciais ao desenvolvimento do bebê. Ele fica localizado na entrada do colo do útero e sai quando o trabalho de parto está se iniciando. Eu sabia que era chegada a hora. Nesse momento, senti medo. Não segui o conselho do curso de gestantes de esperar as dores se intensificarem ainda mais para ir para o hospital. No primeiro aumento, já corri para a maternidade.

Chegando lá, por volta das três, quatro horas, fiz alguns exames e o pior deles: o de toque. No meu caso, foi tão dolorido quanto a dor do parto, pelo incômodo, pelo aspecto invasivo, mas é claro que estou exagerando. Só quero ressaltar que esse exame é ruim. Dói muito, agride, mas faz parte, fazer o quê.

Nessa hora descobri que cheguei no hospital com 1 cm de dilatação. O médico que me examinou conseguiu a proeza de aumentar mais 2 cm. Não me pergunte como. Só sei que fui indicada a ficar lá. A Valentina queria mesmo nascer naquele dia.

Após esse exame, fui encaminhada para a internação. Fiz todo procedimento: coloquei a roupinha da maternidade, após lutar alguns bons minutos para entender como vestia aquele avental (tive que pedir ajuda), coloquei a pulseirinha de identificação, guardei minhas coisas, fui para o quarto.

Tinha pedido para uma amiga minha me acompanhar durante o trabalho de parto. Ela demorou um pouco. Enquanto ela não chegava, eu começava a me confundir com a dor que estava sentindo, mas ainda era suportável. Ela chegou, conversamos um pouco (eu ainda conseguia conversar), andei pelos corredores, parando as vezes, quando vinha uma contração mais forte.

Fui examinada mais uma vez (exame de toque, que ódio de você!) e mais outra (talvez tenha sido até mais, a minha amiga disse que foi mais, eu nem lembro desses detalhes). Em dado momento, a médica disse que eu não estava evoluindo nas contrações e que ela ia iniciar o medicamento para acelerar o processo. Eu disse que tudo bem, sem saber que isso significava que eu estava aceitando uma dor pior do que o comum. As dores de contração causadas por esses medicamentos são mais agressivas do que as que a natureza manda. Claro que sim, uma é orgânica, a outra é química. Não é difícil de entender.

Ela abriu o acesso e introduziu o medicamento na minha veia. Minutos depois, eu já não me reconhecia. Eu e a dor éramos uma coisa só. No início, ainda respirava entre as contrações, mas o problema desse remédio é que ele não só acelera o processo, ele o torna contínuo. Diferente da dor natural, que vai e vem como em ondas.

O período que passei sentindo as contrações por causa da ocitocina sintética (o nome do remédio é esse) foram como uma eternidade. Eu não gritava plenos pulmões, nem chamava pela minha mãe (quem dera se ela estivesse ali!), muito menos xingava, dizia palavrões. Essas coisas eu ouvia pelos corredores. Algumas grávidas simplesmente extravasam a dor dessa forma. No meu caso, eram só gemidos e contorções. Todo momento que fiquei deitada naquela cama sentindo uma dor que me torcia toda por dentro, só pensava em quando aquilo ia acabar. Eu sabia, no meu íntimo, que ia aguentar firme. Que nada de mal ia acontecer, mas  a dor é irracional, visceral, destrói a gente.

Eu senti muita falta de ter minha mãe acariciando minha cabeça e dizendo que estava tudo bem. Há quatro anos ela já havia partido e eu não tinha mais o privilégio de contar com esse nível de amor ao meu lado. Mas minha amiga fez o que pode, coitada! Depois disse que eu a traumatizei, brincando. Porém sei e a conheço: há um fundo de verdade nessa troça.

Dei graças a todos os deuses quando a equipe me mandou tomar um banho morno para acalmar a dor. Realmente essa técnica funciona. Nessa etapa, eu embaixo do chuveiro, deixando a água cair nas minhas costas, reencontrei a paz de não sentir nada. Fiquei algum tempo e depois saí. Mas hoje já acho que eu devia ter ficado até chegar em 10 cm de dilatação mesmo. Acontece que o hospital não permitiria um gasto de água desses. Eu acho.

De volta à cama, lá fui eu sofrer um bocado de novo. A dor não dava trégua. Ela queria me consumir, me amarrar, me romper artérias, veias, coração, rins, tudo. A impressão que eu tinha era de que o tempo não passava, de que nada acontecia, de que aquela experiência seria ad infinitum vivida por mim.

Mas não foi. Não sei a hora exata, mas em certo momento a médica fez novamente o exame e verificou que havia a presença de mecônio, o que significava que o parto precisava ser feito logo, pois essa substância, que nada mais é do cocô de bebê, poderia indicar (mas não é regra) que o feto estava em sofrimento fetal. Elas não disseram nada disso, só disseram que iam ter que romper a bolsa e acelerar o processo ainda mais (sim, até esse momento, minha bolsa seguia intacta).

Na verdade, acho que nem deu tempo de eu sentir medo. Desse momento em diante, tudo foi bem rápido. Até a equipe celebrar, após mais um exame, que o bebê estava perto de “coroar”. Depois disso, me colocaram em uma cadeira de rodas e disseram: Vamos, é chegada a hora.

Eu quase não consegui fazer essa transposição da cama para a cadeira, estava fraca, estava sentindo a pior fase da dor do parto, as últimas contrações. Para quem não sabe bem, a contração nada mais é do que colo do útero se expandindo. Quando chega a 10 cm, entra em cena a nova fase: da expulsão, que costuma ser bem rápida. Bom, no meu caso foi.

Após chegar na mesa de parto propriamente dita, fui colocada em posição de dar à luz. Não me peça detalhes. Todo mundo sabe do que estou falando. Pediram, então, para eu esperar uma contração e começar a fazer força. Não demorou nada e lá veio a dor, toda toda, querendo mostrar para mim que meus cinquenta quilos e meus 1,58 não significavam que eu era pequena, miúda, frágil. A dor me mostrava que eu era imponente, forte, mamífera. Logo que ela chegou, comecei o trabalho de expulsar o bebê.

É natural, a dor pede para que você faça isso. Esse momento foi, de longe, o mais emocionante: eu pensando estar sem forças, mas cheia delas, em cada poro. As meninas do corpo médico diziam: Vai, você consegue. E eu, munida de todo amor que sabia que sentiria por aquele bebê, fazia mais e mais força. Até que ela nasceu, veio ao mundo ouvindo a frase: Nossa, como sua bebê é cabeludinha! E eu, quase gritei ufa, quase gritei gol, quase gritei consegui. Mas fiquei quietinha. A dor ia embora de mim, e eu conhecia minha face interna de glória. Eu era mãe, eu tinha dado conta, eu tinha conseguido. Minha filha estava bem.

Não me pergunte se o parto normal dói. Isso é como perguntar se as estrelas do céu brilham à noite. Ao invés disso, questione se é possível, se tem como uma mulher aguentar esse nível de dor. Eu direi que sim, claro que é. Eu consegui e não tenho nada de especial. Toda mulher é plenamente capaz de dar à luz ao seu filho, de modo natural. Salvo exceções muitíssimos específicas, isso é dom inato. Não à toa, mulheres são seres fortes. Elas precisam ser. São elas que abrem a alma para que outro ser vivo possa existir.

Desse dia tenho guardado sim o sofrimento de todo antes e durante. Mas é o depois que ficou registrado no meu coração. São os olhos da minha filha olhando pela primeira vez para mim a razão de eu olhar para trás e achar linda e perfeita aquela data.

Dia 10 de janeiro de 2015 ficou sendo o dia que meu coração se expandiu e ficou maior que eu. Hoje sou mãe. Tenho agora em mim esse nível de amor.

 

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