Seu filho não merece apanhar

nao bata no seu filho

Imagine que você chegou em um universo paralelo totalmente diferente do que você conhecia: não conhece os costumes, não sabe o que é certo e errado e nem mesmo o que sente em relação a esse lugar. Agora visualize que conhece algumas pessoas, que serão as responsáveis por te apresentar esse mundo novo, e que elas estipulam que se você fizer algo contrário ao que elas esperam, elas vão fazer uma coisa um pouco esquisita: te bater.

Agora, troque a palavra “você” do texto por “criança” e “pessoas” por “pais”, o universo paralelo em questão, nada mais é do que este mundo que residimos. Esse é o cenário da vida de uma criança que apanha em casa. 

Sim! Vou falar dessa polêmica, mas talvez nem consiga falar tudo o que quero. Acontece que existe mesmo uma cultura arraigada que estipulou que criança tem que apanhar para aprender a ser gente na vida. Essa educação pela violência é coisa antiga. A maioria dos adultos de hoje apanhou quando criança.

A prática era tão disseminada que precisou até entrar o Estado na história e baixar lei dizendo: olha, não pode bater em crianças, tá? (Lei 13.010 – 2014, mais conhecida como Lei da Palmada).

Claro que teve gente, à época da votação, que disse que era um erro essa coisa de proibir os pais de bater nos filhos, que palmadinha não é agressão física, que se não bate na criança ela vira aquele ser odiento e mimado, com inclinação para querer dominar o mundo.

São pessoas que apanharam na infância (a maioria) e sobreviveram (quem não conhece aquela frase batida que justifica tudo dizendo que fez tal coisa e não morreu por isso).

violencia contra criancas

Fica caladinho…

Eu, evidentemente, sou absolutamente contra violência física. Você não bate no seu chefe, no seu amigo, no seu namorado, na sua tia, por que eles fizeram algo que você não gostou. Por que raios bater no filho pode? Daí você vai dizer:

— Ah, mas filho a gente está educando. Tem que ser assim mesmo, caso contrário a criança não aprende.

E eu respondo: É exatamente por isso que você nunca deve bater no seu filho. Além de ser uma criança, ele está aprendendo como se relacionar com o mundo. Se na casa dele existe um padrão de punir com agressão física os desvios, ele vai crescer achando que a violência é uma coisa ok, pode reproduzir isso na vida dele por anos e o que é pior: vai enxergar o próprio lar como um lugar assustador e querer fugir, assim que possível. Agora imagine as consequências de assimilar essa ideia de lar na mente de uma pessoa.

Sou contra bater e estou aqui para dizer que seu filho não merece apanhar, não merece pais descontrolados, que agridem e impõem as regras pela via do medo. Seu pequeno nunca vai te respeitar, vai sentir medo de você. São coisas diferentes. Ele vai sim deixar de subir na estante de casa, pois vai ficar aterrorizado com a ideia de ter as costas açoitadas por aquele cinto do mal que você tem em casa.

nao bata em crianca

A alegria da criançada

Mas, em nenhum momento, ele vai entender o porquê não deve subir na estante. Ao contrário, vai se afastar de você por sentir medo. Vai desenvolver ferramentas e habilidades para driblar o negócio do cinto. Vai crescer achando que o mundo e as pessoas machucam a gente. Não vai aprender o amor, vai sentir medo dele.

Não sou eu que estou falando. Eu – que não me lembro de ter apanhado dos meus pais, e mesmo assim não virei uma pessoa mimada e inconsequente – desde sempre abomino a agressão física. Claro que fico com raiva, muitas vezes beirando à exaustão, como muitas vezes já disse aqui. Já gritei com a Valentina, já fui ríspida, já senti vontade de sair correndo diversas vezes, mas em todas elas me veio o pensamento de que é meu dever ter o controle e ensinar para ela como a gente deve lidar com nossos próprios monstros.

Há uma pesquisa (na verdade, existem várias, mas vou citar uma só) que exemplifica tudo isso que estou falando:  uma dupla de pesquisadores dos Estados Unidos analisou dados de 75 estudos realizados por um período de 50 anos e concluíram que crianças que apanham tinham um pior comportamento, e não um melhor como muitos imaginam. Eram mais agressivas e antissociais e estavam mais propensa a desenvolver problemas mentais, terem relações problemáticas com os pais e uma menor capacidade cognitiva (o estudo está bem detalhado nesse link).

Tudo isso para mim é  muito óbvio: a criança aprende o que os pais ensinam. Por mais que eles falem coisas, elas vão aprender mesmo pelo que eles fazem. Viver em um ambiente agressivo só pode ser prejudicial mesmo: a criança vai aprendendo e introjetando a violência e pode ir por duas vias: ser aquele “amor” de pessoa, explosiva, agressiva e raivosa ou ser introvertida, insegura, medrosa. Nenhum deles é muito legal. Eu acredito que, por mais que seja desafiador não apelar para ignorância algumas vezes com nossos filhos, a melhor forma de educação é o ensinamento pelo amor, pelo respeito, compressão, empatia.

Não estou aqui pintando o céu de cores do arco-íris e achando que as nuvens são ovelhinhas felizes no céu. Estou sendo racional, como uma mãe que prefere a via do amor sempre. Eu quero muito que a Valentina siga achando o lar um lugar no qual ela quer voltar sempre que precisar de segurança e amor. Quero que ela respeite todo mundo, inclusive os próprios filhos. Quero que ela escolha sempre parar e respirar fundo a atacar meio mundo por aí.

Claro que não é nada fácil. A tarefa é árdua mesmo. É um exercício diário. Nós aprendemos todos os dias com as crianças também por isso: podemos ser pessoas melhores ou repetir padrões comprovadamente ultrapassados e ineficientes. E aí: o que você prefere?

 

FONTES:

http://hypescience.com/palmada-saude-comportamento-antissocial/

http://www.minhavida.com.br/familia/materias/17633-crianca-que-apanha-dos-pais-desenvolve-medos-e-tem-maior-tendencia-a-mentir

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/blog/textos/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao-e-educar

http://educarparacrescer.abril.com.br/comportamento/educar-palmadas-589398.shtml

http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2014/11/lei-da-palmada-o-que-mudou-com-a-aprovacao-da-norma

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