O estigma da mãe solteira

Mae-solteira

O post de hoje é um desabafo. Se você não aguenta papo sério, esse material de hoje não é para você.  Entra lá no Facebook e vai ver memes, ok?

Esclarecido o público-alvo, bora continuar.

Pois então. Recentemente eu fui vítima de um ato descaradamente preconceituoso, não dirigido exatamente a mim, mas a minha classe.

Que classe? Você deve estar pensando:

Classe das mães que querem trabalhar fora, mas precisamente, classe das mães que querem trabalhar fora e não são casadas.

Foi durante uma entrevista de emprego, o fulano lá do recrutamento disse que não ia contratar mãezinha de criancinha pequena, por que elas faltam, chegam atrasadas e ele teve um monte de experiências, todas fizeram isso.

Acontece que eu estava na seleção. Não sei se eles deixaram passar batido o fato de que na minha ficha constava que eu era mãe de uma menina de dois anos, ou se ele quis me colocar lá no meio por que acordou com vontade de contrariar os próprios critérios. O fato é que esse processo seletivo foi o mais louco que já enfrentei. Enfim, o resumo da ópera é que o cara tinha preconceito mesmo, mas quis mostrar de todo jeito que não, inclusive me colocando entre as finalistas só para mostrar que ele era legal (eu sei disso por que na minha ficha tinha um “não” bem grande, escrito em azul).

Bom. Esse é o fato. Nesse dia, fiz duas entrevistas para duas empresas diferentes (disse que foi muito louco esse processo seletivo, não disse?). Em uma delas, a recrutadora perguntou se eu era casada, etc, etc.

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Acontece que na minha mente ingênua ser casada ou não, ter filhos ou não, não deveria fazer parte da entrevista e muito menos pesar na decisão. Porém sei que isso não procede, que as pessoas chegam cheias de preconceito mesmo, que RH faz teste até de tiro ao alvo para não errar na decisão e todas as empresas tem pelo menos meia dúzia de zés manés que não sabem trabalhar.

O que senti aquele dia foi a verdade nua e crua de uma marca que sei que vou levar para sempre: o estigma de ser uma mãe solteira.

Sim. Vão me julgar, como julgam no momento em que sabem da situação. O que entra em cena para definir uma mãe que cria o filho sozinha nunca é se ela é uma boa mãe, uma boa pessoa, se corta um dobrado para dar conta de tudo alone; o que pesa aqui é que ela não se preveniu, que poderia ter evitado, que andou saindo com qualquer um e por isso engravidou e ficou sozinha. Nesse julgamento todas as mães solteiras são iguais, fabricadas no mesmo lugar. Produção em massa, nem precisa conversar para conhecer, é gentinha.

Não importa se esse filho veio de um relacionamento longo e que não deu certo, não importa que relacionamentos que não dão certo não sejam uma exclusividade de mães sozinhas, que geral enfrenta dor de cotovelo e pé na bunda o tempo todo.

Daí, você pode até dizer:

— Ora, mas nos outros casos não têm uma grávida na história.

Pois bem, esse talvez seja o xis da questão: no carrossel de lugares-comuns, preconceitos e ignorância, ninguém pensa que existe  uma criança, que ela é que deve importar na história. Criança não é consequência de uma relação desprotegida, criança é gente. Quem julga tanto quem cria esse serzinho deveria se preocupar – já que precisa se preocupar com vida alheia – se essa mãe está educando uma pessoa boa para o mundo. Uma pessoa que, lá na frente, não vai fazer tanto estrago, vai pensar nos outros, ter empatia.

Quem julga uma mãe solteira deveria parar de apontar o dedo falando de métodos anticoncepcionais quando todo mundo sabe que quase ninguém se cuida direito mesmo. Por exemplo, uma pesquisa recente da Gentis Panel, especializada em pesquisa de mercado, mostra que 52% dos brasileiros nunca ou raramente usam preservativo (a pesquisa está nesse link). Além disso, é muito comum as mulheres adotarem o uso da pílula anticoncepcional de modo “desleixado”: usa um dia, esquece outro, toma dois de uma vez. Já vi gente engravidar usando DIU, já vi muita gente dizendo que usava o método certinho e mesmo assim engravidou.

O que estou dizendo é que as pessoas julgam quem enfrentou uma gravidez inesperada, mas vivem em suas vidas comportamentos de risco o tempo todo.

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HIPÓCRITA!

Lembre-se: o filho da mãe solteira está lá sendo cuidado por ela, que precisa, muitas vezes, trabalhar em subempregos para dar conta do trampo que é criar uma criança. Por que ninguém julga o cara que sai engravidando geral e não faz nada respeito e muito menos usa a consciência para ser um pai de verdade?

Evidentemente, no universo das mães que criam filhos sozinhas, há todo perfil de mulher, mas e daí? Se ela estiver cumprindo o papel de assumir a responsabilidade por aquela criança, ninguém tem que falar absolutamente nada.

Eu me tornei mãe solteira e vi um mundo de rótulos e julgamentos se abrir em espinhos. Parecia que eu tinha virado a pior espécie de ser humano, mesmo eu sendo uma pessoa correta desde sempre. Muita gente prefere aceitar casamentos cheios de traições, mentiras e violência a encarar essa vida difícil de criar um filho sozinha.

Tenho uma amiga que fala que não sabe como eu aguento tanta responsabilidade, que se fosse ela já tinha “entregado os pontos”, e eu sempre respondo que a gente enfrenta o que a vida nos traz, não é questão de escolha. Jamais pensei em desistir ou coisa parecida. Também não fico me fazendo de vítima. O post de hoje não é exatamente uma reclamação, é mais um desabafo, pois, infelizmente, eu sei que o mundo não é um céu de brigadeiro. As pessoas te julgam sem te conhecer mesmo.

Minha vida é muito boa e eu sou muito feliz. Não me arrependo de nada. Sigo sendo a mesma pessoa de sempre, e, possivelmente, até melhor. Minha tarefa é ter responsabilidade e dar amor para minha filha. Isso eu ando fazendo muito bem, obrigada!

Será que esses que julgam tanto os outros podem dizer com segurança que são felizes, fazem o bem e têm responsabilidade sobre o mundo?

Acho que não, né?

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