Não culpe a mãe sobrecarregada

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Pensei nesse post por semanas, sem saber direito de que forma ia ponderar o que tinha em mente. Hoje, depois de uma autoavaliação, o texto deixou de habitar minha mente para vir morar aqui nesse humilde blog. Para começar, uma cena: uma mãe que grita com o filho, possivelmente, um pequenininho de, sei lá, três, quatro anos, talvez um pouco mais. Ele não fez nada demais, queria dar suco para o boneco de estimação e derrubou tudo na mesa. Normal. Crianças têm dessas coisas. No entanto, a mãe gritou e gritou. Depois, veio a culpa. O pedido de desculpas.

Não façam suposições, minhas caras leitoras. Essa mãe não sou eu. Daí, vocês pensam: Ora, Cíntia, então você é o Dalai Lama das mães, nunca perde a paciência? Fala a verdade! Essa mãe aí do exemplo é você, né, não?

Pois essa não sou eu. Mas essa é uma cena que habita minha memória há muito tempo, pois lembro que quando era mais jovem (por que jovem ainda sou…rs) pensava que mães que viviam gritando com os filhos eram loucas, desequilibradas, péssimas. Não lembro, de verdade, na época da minha infância, de cenas da minha mãe gritando comigo. Claro que ela deve ter gritado, mas eu não gravei isso na memória, pois acho que era bem raro. Por isso, mães gritadeiras (existe essa palavra?) me incomodavam, e eu – do alto da minha experiência dos dez anos de idade – julgava-as dessa forma.

Só que aí, tempão depois eu virei mãe. E minha visão dessas mães que gritam mudou depois que eu perdi a paciência pela primeira vez com a minha filha, quando ela tinha uns oito meses, acho. Eu vinha de dias sem dormir quase nada, teimando para fazê-la dormir as sonecas da tarde para não ficar cansada para o sono da noite (já falei da importância do sono diurno para o noturno aqui nesse post), sobrecarregada de tarefas domésticas e do trabalho como jornalista em esquema home-office parcial, sentindo-me sozinha nessa viagem que é criar uma criança. Eu estava exausta, eu estava triste por estar exausta e não ser a super mãe que eu achava que devia ser. Enfim, veio o descontrole e depois a culpa, igual do exemplo acima, mas em outra circunstância.

Nesse dia refleti que eu compreendia sim a mãe intolerante, sem paciência, pois imaginava que, assim como eu, aquela mãe gritadeira estava sobrecarregada e o grito era também um pedido de socorro.

Tempo passou e tudo voltou ao normal. O descontrole foi um ato isolado e eu voltei a ser a mãe paciente que eu acredito que sou. No entanto, meses depois, um novo acesso de raiva. E a culpa. A desculpa. Aconteceu mais vezes, vezes contadas, mas todas muito doloridas. E eu passei a entender ainda mais essa mãe que perde o controle. Eu fui essa mãe algumas vezes, e eu não sou uma péssima mãe.

Claro que existem mães descontroladas, que não tem paciência nunca, que acham que o filho veio para acabar com a paz delas, mesmo que tenha sido desejado, mas acredito que são exceções em um universo de mães que levam o peso do mundo nas costas e ninguém liga.

Digo o peso do mundo pois elas estão criando cidadão das novas gerações, gente que vai se relacionar, trabalhar, fazer discurso, defender ideias, votar, tomar decisões. Todas, certamente, querem os filhos felizes, mas a maioria não sabe, mesmo sendo mães há muito tempo, como fazer isso exatamente. Ninguém sabe. Não tem fórmula. Mas por trás de todo filho tem uma mãe que fez um trabalhão para mantê-lo saudável, em segurança, acolhido. E esse trabalhão cansa muito. A mãe vai sentir falta, muitas vezes, de si mesma. Vai se perder no mar de tarefas e esquecer de fazer as unhas, de arrumar o cabelo. Vai privilegiar o filho em detrimento do casamento, sem saber que está fazendo isso. É muito peso. É muita responsabilidade.

Por isso, o que quero dizer nesse post, na verdade, é um pedido: antes de julgar a mãe que perde o controle, olhe para ela como ser humano e pense que aquele pode ser um pedido de socorro. Se puder atender esse pedido, melhor ainda, se não puder, só não julgue com seus preconceitos e falta de vivência.

Lembre-se de que ela está levando o peso no mundo nas costas.

Toda mãe leva o peso do mundo nas costas.

Elas merecem um segundo olhar.

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