O tempo das crianças

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A nossa infância é uma fase que passa tão rápido e logo torna-se “outra vida” que poucas vezes paramos para pensar na criança que nós fomos, em como nos sentíamos, em como as experiências juvenis nos tornaram esse ou aquele tipo de adulto. Desde que me tornei mãe, consegui fazer um pouco desse resgate e, mais importante do que isso, consegui olhar para a Valentina como o ser humano que ela é, antes de pensar que ela é MINHA filha, como se isso me desse a primazia de ignorar o que ela sente ou de achar que meus preconceitos são mais importantes do que a felicidade dela.

Ora, por que esse estou fazendo esses questionamentos tão espinhosos logo assim, no começo do blog. Será que acordei de mau humor?

Não. Nunca acordo de mau humor (kkkk). Esse assunto de empatia com as crianças surgiu, porque ando lendo muito a respeito das variadas fases que os pequenos passam, os vários fins e inícios que eles enfrentam o tempo todo. Pensando bem, as coisas mais importantes que passamos acontecem quando a gente ainda não têm aquele domínio racional dos adultos: a separação da mãe para ir para a escolinha, o fim da amamentação, o desfralde…São acontecimentos marcantes quando crianças, mas noto que, com felizes exceções, poucos são os que olham esses momentos com o respeito que toda criança merece nessas horas. 

Ainda não captaram a mensagem? Estarei eu muito prolixa hoje?

O que quero com esse post é alertar os pais para a importância de respeitar o tempo das crianças (ah ha! Cheguei lá) e fechar bem os ouvidos para os comentários de terceiros que não querem ajudar, em sua grande maioria, mas apenas mostrar que eles foram pais melhores ou que sabem mais que vocês. 

Por exemplo, o desmame. Até hoje ouço as mais variadas frases preconceituosas, desinformadas e maldosas a respeito do fato de eu ainda dar de mamar para a Valentina. Ouvi até mesmo de gente MUITO próxima que já era hora de desmamar minha pequena. Até ontem eu respondia esses comentários, mas hoje já acho que se o infeliz fala algo sem saber ou apenas para maldizer, nem compensa responder (minha dica). Todo mundo que é minimamente informado sobre maternagem sabe o quanto a amamentação é importante para o bebê e o quanto cada um deles tem o tempo próprio para se despedir do mamá. 

Ah, mas se você continuar, ela vai chegar aos  5, 10 anos mamando. Já vi isso!

(Esse é o tipo de comentário que eu não respondo mais).

Existem estudos comparativos a respeito do tempo de desmame natural em mamíferos. Como são muitas as variáveis e critérios, vou deixar aqui um estudo bem interessante de uma da pesquisadora da Universidade do Texas, Katherine Dettwyler (vi no site Slingando) sobre isso. No texto ela afirma: “Nas sociedades em que é permitido às crianças serem amamentadas no peito “até quando quiserem”, elas geralmente desmamam por si próprias, sem discussões ou traumas emocionais, entre os três e os quatro anos de idade”. 

Qualquer mãe que desmamou naturalmente crava esse período, normalmente. No entanto, nossa cultura força o desmame por entender que o leite materno é algo apenas nutricional (apesar do leite materno manter as propriedades nutricionais mesmo depois de dois anos) e também por hipersexualizar o corpo feminino. Já ouvi que peito é algo sexual, imagina ficar dando de mamar para um bebê por tanto tempo.

Pois é. No entanto, não tem nenhum cabimento essa colocação. Mãe e filho sabem que a troca na amamentação é absolutamente maternal, como tem que ser. Que mamíferos têm mamas justamente para dar de mamar, que a utilização deles para fins recreativos (kkk) é algo acessório. Enfim, essa discussão é longa e foge um pouco do que quero falar aqui (desculpem me alongar na questão do desmame, é que esse assunto mexe comigo).

Quando feitos naturalmente, esses processos de desmame e desfralde, por exemplo, são absolutamente tranquilos. É claro que a criança vai sentir um pouco, é um fim de ciclo para ela. Faz parte. É luto também. No entanto, ela entende emocionalmente que aquele momento passou. Entende com o coração que está crescendo e isso faz parte. Não gera nela ansiedade, frustração, vergonha, coisas que acontecem quando a mãe decide forçar esses fins. 

Além disso, no livro que li “A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra”, de Laura Gutman (olha ela aqui de novo), a autora fala que, quando não vivenciadas na fase certa, esses processos voltam depois, muitas vezes na idade adulta, de alguma forma. Assim, por exemplo, uma criança que foi desfraldada à força, pode começar a fazer xixi na cama mais para frente, pois ela, lá atrás, fisiologicamente e emocionalmente, não estava pronta para esse processo. Ela conta, inclusive, do caso de uma família INTEIRA que fazia xixi na cama. 

Essas observações sobre o momento certo é algo que só mesmo os pais conseguem fazer. E não tem muito essa coisa de dicas e macetes: nós conhecemos nossos filhos e saberemos sim quando eles estiverem dando sinais de estarem prontos. 

Respeitem o tempo das crianças, pois elas precisam muito desse olhar carinhoso e compreensivo de quem as ama com todas as forças: os pais. Por favor, ignorem terceiros. Eles não sabem o que dizem! Quem sabe mesmo é você do seu filho. Da mesma forma que só eu sei profundamente das necessidades da minha filha.

Mas para fazer esse exercício empático tem que deixar o coração aberto. Não é para qualquer um, mas todo mundo é capaz de fazer.

Espero que tenham gostado!

 

 

 

 

 

 

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4 comentários sobre “O tempo das crianças

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