Dar de mamar após 1 ano: não há mal nenhum nisso (na verdade só faz bem)

 

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Amamentar é um processo. Dói. Machuca. Demora. Desgasta. Incomoda. Vaza. Suja a roupa. Emagrece. 

Ninguém nunca me disse isso quando eu estava grávida, nem mesmo nos primeiros meses como mãe de primeira viagem. Mas esqueceram de dizer outras coisas também.

Amamentar é espiritual. Calor. Contato. Carinho. Cumplicidade. Olhinhos apaixonados. Aprendizado. Harmonia. Simbiose. Amor demais. 

Hoje – 1 ano e 4 meses depois do nascimento da minha filha – amamentação para mim e para ela é algo tão natural como respirar. E continua tão mágico quanto sempre foi. No entanto, já recebi uma meia dúzia de olhares tortos por que a Valentina ainda mama. Algumas vezes, até ouvi comentários, no mínimo, despropositados. Por isso, hoje vou falar disso mesmo: amamentação prolongada. Por que, meu Deus do Céu, isso ainda é tão incompreensível para algumas pessoas? Se você, como eu, também passou ou está passando por isso, vou dar TODOS os argumentos para você retrucar palpites idiotas ou mesmo para ficar em paz com seu coração . Sigam-me os bons (COLORADO, Chapolin). 

NOSSA, SEU BEBÊ JÁ COME! SEU LEITE É SÓ ÁGUA AGORA!

 

Blog da Matrice

Olhem esse gráfico com bastante atenção. Ele mostra a composição do leite materno no segundo ano de vida (sim, Cíntia! Eu vi, está escrito no título). Agora, me digam: é só água mesmo? Evidente que não. O leite materno é um alimento tão rico, que vai se transformando e se adaptando às necessidades do bebê. No começo, quando ele precisa daquele gordura boa que o fará engordar a olhos vistos, o leite materno conta com bastante desse nutriente, já depois, quando o bebê vira criança, entra a cena, por exemplo, a Vitamina A, que é responsável por auxiliar no crescimento, fortalecer a imunidade, contribuir na formação dos dentes, entre outras coisas; a proteína, que é importantíssima na formação e manutenção de todos os órgãos e tecidos; o ferro, a energia e um monte de outros nutrientes essenciais para o corpo humano.

Ali no gráfico está bem claro: o leite materno, no segundo ano de vida, fornece quase 80% das necessidades diárias de Vitamina A, mais de 50% das necessidades de proteína, cerca de 30% das necessidades de energia e quase 10% das necessidades de ferro. Esses dados eu tirei do Blog da Matrice, mas são da Organização Mundial de Saúde (OMS). Além de nutritivo, já está comprovado que crianças que mamam por mais tempo têm a imunidade melhor, consequentemente, ficam menos doentes e desenvolvem menos alergias. Podem também ser mais inteligentes: pesquisa da Nova Zelândia mostra que crianças amamentadas por mais tempo têm melhores resultados na escola já que – de acordo com os autores da pesquisa – as gorduras insaturadas presentes no leite materno ajudam no crescimento do cérebro e sistema nervoso. Crianças amamentadas no peito ficam menos desidratadas. Já que o leite materno tem água também. Mas não é só água…

ESSA CRIANÇA VAI FICAR DEPENDENTE DE VOCÊ PARA SEMPRE

Primeiro, ria desse comentário. Depois tenta responder, se você conseguir segurar o riso. Não dá para levar a sério uma pessoa que acha que o filho vai ser dependente da mãe para sempre. Claro que não! Normalmente, pessoas que falam isso acham que dar colo estraga o bebê, que deixar chorar faz bem para ele, que limite se estabelece dando palmada, enfim, um monte de baboseira que não deve ser levada em consideração. Mas levemos. Só para contra-argumentar: na verdade, o que acontece é o contrário: crianças que têm suas necessidades de afeto supridas são mais seguras, pois sabem que têm alguém que as ampare nesse mundo. Elas não estão sozinhas. Se os pais conseguem atender com colo, carinho, compreensão e muita livre demanda o seu pequeno, ele vai superar essa fase com mais eficiência. A possibilidade de passar para as próximas etapas com mais segurança são muito maiores. 

Vamos fazer uma simulação aqui: imagine um bebê acostumado com aquele aconchego do peito. A mãe decide de uma hora para outra que é hora de tirar esse “vício” dele. Daí recorre aqueles métodos pouco ortodoxos de enganar a criança dizendo que o mamá está dói, fazendo simpatia, ou sei lá o que mais. O pequeno vê de uma hora para outra algo ser tirado dele, de modo brusco. Como ele não consegue captar a mensagem que a mãe quis passar, entende isso como uma recusa da mãe em estar perto dele, já que mamar = mãe perto. Como vocês acham que esse ser vai crescer, tendo isso em sua psique? Certamente com insegurança, tendo em vista que ele perdeu de uma hora para outra algo que era importante para ele e ninguém explicou nada. Vai crescer com essa ideia: tudo o que amo pode ser tirado a qualquer momento.

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Até hoje tentando entender…

Antes que alguém diga: Cíntia, você está viajando! Não precisa ir tão longe! Eu respondo: a fase que as coisas mais impactam na nossa vida é a primeira infância. Ponto. Já disse isso outras vezes e vou dizer sempre que puder. Criem crianças de modo mais saudável e vocês terão adultos melhores. 

Amamentação para um bebê não é só alimento. Falar que o ato de dar de mamar é apenas leite materno, nutrição física e pronto, é ser muito superficial. Amamentar envolve uma construção de relacionamento mãe/filho, uma troca verdadeira, um equilíbrio hormonal e emocional sem igual. O bebê que está sendo amamentado não está apenas recebendo alimento, está recebendo amor, calor, contato, toque, reciprocidade. Evidentemente, todas essas coisas podem ser oferecidas de outras formas, mas é tudo uma questão de construção. Abrace, beije, cheire, diga que ama. Com o tempo, seu bebê vai perceber que pode ter tudo isso sempre, sem precisar mamar. Mas é ele que decide (vou falar de desmame a fundo nos próximos posts). Não deixe que ninguém fora da relação mãe/bebê dite o que você deve fazer a respeito da amamentação. Vocês dois são um círculo fechado, nesse caso. Só cabe aos dois a decisão sobre o processo todo envolvendo o ato de dar de mamar. 

ISSO NÃO É NATURAL!

Tem gente que acha que dar de mamar por mais tempo a uma criança é algo anormal, que a mãe deve ter algum problema, já ouvi até que nessa fase a amamentação é mais importante para a mãe – que não quer largar a cria – do que para o bebê!!! Como assim, gente? Vamos ser racionais. Qualquer pessoa que veja a amamentação prolongada com um viés que não seja o maternal deve ser ignorada com sucesso. Entre os mamíferos não existe essa de “hora de desmamar”. Tudo é natural. O bebê está pronto e para de mamar. Sem sofrimento. 

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Humanos me cansam! Afffff

Convencionou-se achar que bebê de seis meses, por exemplo, já está pronto para desmamar. Sei lá se por que é a fase que ele começa a comer, ou por que começou a engatinhar. O fato é que, normalmente, nessa etapa muitos bebês já não mamam mais. Acontece que há vários estudos mostrando que o desmame no ser humano é natural quando ocorre entre dois anos e meio e sete anos. Esse estudo é da antropóloga Katherine Dettwyler (quer saber mais sobre o estudo, clique aqui). 

Desmamar não deve ser um processo brusco. É necessário levar em conta se a criança está preparada para isso. É uma decisão que não é só da mãe, na verdade é muito mais da criança mesmo. 

Bom, estou quase terminando esse post. Vou deixar aqui um link legal sobre amamentação prolongada, com dicas de mais benefícios, como saber se é hora do desmame e como dar de mamar, nessa fase, sem estresse. É esse aqui ó:  

Tem um pediatra chamado William Sears que disse uma vez uma coisa muito legal a respeito da amamentação: 

 “Não limite a duração da amamentação a um período pré-determinado. Siga os sinais do bebê. A vida é uma série de desmames, do útero, do seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional”.

Por isso, não dê a mínima bola para os palpites ou olhares tortos dos outros. Se você está confortável e sente que seu filho ou filha ainda precisa da amamentação, não entre nessa de querer desmamar assim, sem mais, nem menos. De minha parte, não ligo para os palpites, mas os olhares discordantes ainda me incomodam um pouco. Tanto que tento não amamentar em público, mas às vezes não é possível. Daí já viu: penso na minha filha primeiro sempre. Os outros que virem para lá, já que não suportam ver uma mãe dando mamá para um filho, e resolvam no divã seus problemas existenciais.

Eta, povo doido! Tanta coisa errada nesse mundo e eles vão encrencar com a mais pura forma de amor que existe!

 

 

 

 

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3 comentários sobre “Dar de mamar após 1 ano: não há mal nenhum nisso (na verdade só faz bem)

  1. Angelita Carvalho disse:

    Meu filho esta com 1 ano e 1 mês e mama muito ainda, gostei muito do seu texto, essa semana mesmo estava buscando sobre amamentar apos 1 ano, esta sendo muito difícil escutar os palpites e olhares, mais vale a pena.

    Curtido por 1 pessoa

    • Cíntia Ferreira disse:

      Fico feliz que tenha gostado, Angelita! Eu também tenho que aguentar todo tipo de comentário maldoso, palpites despropositados e olhares atravessados. Mas hoje estou mais segura. Sei que estou fazendo o melhor para minha filha!

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