Olha lá a mãe solteira

Mãe sozinha

A sua vida é exatamente como você gostaria que ela fosse? Tem alguma coisa, assim, que não foi planejada, mas redefiniu sua alma e te fez felizona? Ou algo programado que mostrou-se menos legal na realidade do que no papel?

Estou perguntando essas coisas porque noto que nossa sociedade patriarcal e machista ainda trata a mulher que cuida SOZINHA do filho como uma criminosa.

— Nossa! Que coisa! Mãe solteira, quem diria?

— Coitadinha! Foi abandonada!

— Também não se cuidou, né? Não soube arrumar um homem que prestasse…Deu nisso!

Sim. As pessoas pensam essas coisas em letras garrafais, coloridas de Néon. Mães que cuidam dos filhos sozinhas – as populares maẽs solteiras – são discriminadas o tempo todo e por (quase) todo mundo.

Agora convido todos a uma reflexão sobre o real sentido da palavra responsabilidade.

Filhos são 50 e 50, certo? Precisamos de dois para que um novo ser exista. Sim, Cíntia, todo mundo sabe disso desde Adão e Eva. Prossiga.

Pois então. A vida não é bem uma planilha de Excel, cheia de fórmulas que sempre chegam aos resultados previstos. Nossa vida – essa coisinha escondidinha na rotina do dia a dia – é bastante imprevisível  e está mais para uma galáxia muito louca, que muda a ordem dos planetas o tempo todo. Mesmo a mais Caxias das criaturas há de convir que em um espaço de 24h as coisas sempre saem um pouco fora da órbita, quando não totalmente.

Homem e árvore

De vez em quando a gente faz isso também!

Acontece com todo mundo. Nas melhores famílias. Um dia você pensa em estudar todos os cursos do mundo, viajar para o exterior e escalar o Everest e no dia seguinte um acontecimento pode mudar completamente essa programação emocionante.

Posso dizer com toda certeza que, salvo raríssimas exceções, nenhuma mulher quer a incumbência do destino de cuidar de uma criança sozinha. Na imensa maioria das vezes, existiu um relacionamento, objetivos em comum, uma história de amor que deixou de fazer sentido para um ou outro, ou para os dois. O saldo dessa relação – o filho – nunca é uma coisa negativa. É isso o que eu acho que as pessoas não entendem. Sempre culpam a criança por existir, os pais por a terem feito, e seguem dedos em riste julgando, julgando, julgando…

Olha lá a mãe que cuida do filho sozinha: ela leva no médico, faz as refeições, dá banho, dá remédio, brinca, dá colo, coloca para dormir, conta historinha, leva para passear, ensina o que pode e o que não pode. Ao mesmo tempo ela trabalha – seja em casa ou fora -, paga contas, cuida dos outros, às vezes tenta cuidar dela mesma também. Nesse mesmo espaço de dia ela está chorando escondida no banheiro por cansaço, ou está sorrindo por uma nova estripulia do filho. Também tem uma hora que ela tem que pensar no que quer para o futuro dela e da criança, como vai ser o mês que vem se o orçamento está tão apertado e quando vai conseguir retomar os projetos pessoais. Pode ser que ela pegue uma gripe de vez em quando, mas nem dá para parar nada. Vai doente trabalhar e a rotina continua, roda que não para de girar.

Criança no Computador

Muita mãe – como eu – tem que fazer isso o tempo todo

Enquanto faz tudo isso, ela é julgada. Por não ter se cuidado mais. Por ter que cuidar sozinha agora. Por não ter escolhido um melhor parceiro. Por não ter sido uma melhor parceira. Nesse intervalo, o pai da criança continua a vida dele, fazendo tudo o que sempre fez, e às vezes até mais. E as pessoas não perguntam por que ele fica 15, 20 dias sem ver o filho ou por que não se aproxima mais. A responsabilidade – essa palavrona cheia de peso – é da mãe, sempre será.

No entanto, as mães que cuidam dos filhos sozinhas vão entender o que eu vou dizer. Amor robusto e verdadeiro é aquele que vai sendo construindo na historinha de rotina que contei lá em cima. É no cuidado com a criança, na orientação, no estar sempre perto que mora esse sentimento tão supervalorizado, mas tão pouco vivido. O filho, por menor que seja, olha essa mãe com amor, e reserva para o pai – quase sempre – a parte dele que gosta como gosta de um colega. Por mais chata que essa mãe seja (aos olhos dos outros) o filho sabe bem quem é ela e o quanto a ama. Crianças estão mais perto do coração, são mais emocionais, intuitivas. Quando se trata de sentimento, elas são milhões de vezes melhores que os adultos. São mais inteligentes emocionalmente, por isso reservam o Amor com o A maiúsculo para quem o coloca como prioridade sempre. Ah, se todos os adultos fossem capazes disso! Tantos corações despedaçados seriam poupados nesse mundão!

Cuidar de um filho sozinha é para os fortes mesmo. Mas ninguém deveria ter que passar por isso, assim. Li no livro “Maternidade e o Encontro com a própria Sombra”, da Laura Gutman (sim, já falei dele trezentas vezes aqui) que um pai e uma mãe são pouco para criar uma criança, que é necessário uma comunidade para dar conta das necessidades dos pequenos. Agora, se um pai e uma mãe não são suficientes, que dirá uma mãe sozinha e sua cria? Daí entra aquela questão da responsabilidade que falei.

Sim. As pessoas me perguntam o tempo todo como eu consigo dar conta.

Menino perguntando

Fala aí!

Eu sempre respondo: Consigo, pois tenho que conseguir. Ou tem outro jeito? É responsa, misturada com muito amor no coração e um desejo enorme de fazer a Valentina a melhor pessoa e a mais feliz. Simples assim.

Não vou entrar em detalhes, pois sou dessas virginianas cheias de amores com a privacidade, mas a minha filha vê o pai constantemente. No entanto, não sinto nela essa identificação com ele, sabe? Credito isso ao Amor com A maiúsculo que falei. Sou uma das grandes paixões dela, mas ele ainda não conseguiu isso.

Acredito que essa seja a grande recompensa de uma tarefa tão Hercúlea quanto criar um filho sozinha: saber que aquele seu amor grandão é recíproco e te preenche tanto. Sim. Cuido dela alone, mas sou muito feliz com minha pequenininha. Claro que queria uma família Margarina, mas aquilo ali é comercial. Na programação normal, a família nunca é lá essas coisas…rs. Briga igual, têm ciúme, deixa toalha na cama. Entenderam, né?

É difícil para todo mundo viver por aqui nesse planeta Terra. Mas é ainda mais difícil quando nos vitimizamos achando que o mundo só nos dá murros e socos o tempo todo. Isso não procede. Você que cuida de seu filho sozinha e acha que é uma grande injustiça e você não se aguenta de tanto cansaço, dá uma olhada bem demorada para seu pequenino ou pequenina: está ali a sua batalha de todo dia, mas está ali também sua felicidade, o sorriso de criança logo cedo, a brincadeira de pega-pega, esconde-esconde, o beijo, o abraço, o olhar cúmplice de quem te entende, sem você falar nada.

Deixa o tempo, esse matreiro, organizar as coisas da forma que forem necessárias: cedo ou tarde seu bebê vai crescer, sua vida afetiva vai voltar ao prumo e você vai poder tomar um banho bem demorado. Enquanto isso curte muito esses momentos de Amor com A maiúsculo. Quando tudo isso passar, só sobrarão mesmo essas preciosidades para guardar na lembrança igual pedra preciosa.

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