Sobre datas, gratidão e amor materno

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Não sou contra datas comemorativas. Acredito no poder do calendário para fazer a gente lembrar das pessoas importantes que fazem parte da nossa vida. Sim. Segundo domingo do mês de maio tem que ser Dia das Mães mesmo. Apesar do aspecto comercial, ninguém nega que muitos filhos, a maioria eu diria, aproveita o gancho para falar que ama e agradecer: atitudes singelas que a rotina, muitas vezes, engole com a voracidade de quem não tem tempo a perder. No dia a dia, a gente esquece de falar ou fica com vergonha. Em uma data comemorativa, a timidez diminui e a memória ajuda mais. Sim. O Dia das Mães é uma data ótima e tocante. As mães mereciam até dois dias no calendário.

Mas o que me traz aqui nessa data querida é martelar aquela ideia de que é na malemolência do dia a dia que mora o amor mais puro e verdadeiro. Nesse sentido, lá vai uma frase batida: Dia das Mães é todo dia, não tem jeito. Eu sou mãe pelo segundo ano e tenho adorado a sensação. Embora seja uma data um pouco ambígua para mim (vou explicar mais para frente o porquê), aprendi a me sentir confortável nesse papel de mãe. Demora, gente! Não é de um dia para o outro que a mãe vira “A Mãe”. É uma construção.

No entanto, noto que as mães não são tratadas com flores e bombons sempre. Na verdade, quase nunca. Essa é uma sociedade que não valoriza a figura dos pais. Exigimos que as pessoas calem suas crias e as deixem quietas em casa, sem atrapalhar muito o mundo dos adultos. Viramos as costas para a mulher que acabou de dar à luz, achando que ela agora tem obrigação de cuidar sozinha de tudo e ainda se sentir feliz.

O mercado de trabalho, então, detesta essa classe. Mães tiram licença (embora seja por um período absolutamente irrisório e despropositado), querem lugar para extrair aquele leite todo no período de amamentação, faltam por que o filho inventou de ficar doente, colocam fotos de bebê em todo Desktop que encontram, na hora do almoço, então, só sabem falar da cria. A sociedade DIZ que ama as mães, mas ignora TODAS as necessidades delas e ainda faz cara feia se ela inventa de invadir os espaços públicos com seu cheiro de leite e suas crianças barulhentas.

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Amamentar em público, por exemplo, é como um crime de lesa-pátria. A sociedade hipersexualizada e rasa, que aceita peitos de fora nas suas festas nacionais, não entende que um bebê, principalmente no início, precisa de peito quase o tempo inteiro mesmo. E o ato de dar de mamar não tem nada a ver com sexo. Aquele par de seios de fora é a natureza cumprindo seu papel, é amor simbolizado, é troca, não tem nada a ver com erotização. Mais uma vez, as pessoas vangloriam e até cobram a mulher quanto à amamentação, mas impedem que ela a faça, porque é feio, melhor colocar uma fraldinha. Ninguém é obrigado a ficar vendo peito quando pega ônibus, por exemplo.

Sim. As mães são amadas em mensagens, frases feitas, propagandas, teorias. Na prática, as pessoas não abraçam essas mães quando elas precisam, quando a mulher acabou de dar à luz e precisa de gente dizendo que tudo vai ficar bem e e ela vai dar conta. Na prática, mundo inteiro quer mais é que a mulher trabalhe e cuide do filho, sem ajuda do pai ou de qualquer outra pessoa que seja, ou então que fique em casa fazendo seu papel de mãe, e siga sendo dona de casa, mulher, esposa e feliz. Na prática, filhos esquecem de ligar para suas mães, porque não deu tempo, porque a mãe só enche o saco, porque eles têm coisas melhores para fazer, como ver vídeos idiotas no Whatsapp ou trocar memes engraçadinhos no mundo mágico do Facebook.

Mães são chatas, não é? Mãe cobra. Reclama. Fala muito. Ninguém entende que criar um filho é das coisas mais difíceis que uma pessoa pode fazer na vida. É responsabilidade absoluta sobre o outro, é abrir mão, é chorar escondida, é questionar se é boa mãe ou não, é ouvir palpites o tempo inteiro sobre tudo o que você faz ou deixa de fazer com seus filhos. Ser mãe cansa. Ser mãe consome. Ser mãe dói. Mas a sociedade não aceita essa mãe que é uma pessoa comum. Que precisa dos outros. Que precisa de apoio. Aceitação. Ajuda. No dia a dia mães são quase invisíveis. Ninguém quer saber como funciona esse mecanismo de colocar uma criança no mundo e fazê-la decente e e feliz. A sociedade quer o resultado. Só isso.

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No entanto, apesar de toda essa dificuldade em ser uma mãe nesse mundo, a maternidade é aquela que te proporciona dois pares de olhinhos apaixonados, olhando você o tempo todo, como se você fosse a pessoa mais linda e mais importante de todo mundo. A maternidade te dá mãozinhas e pezinhos fofos que te acariciam enquanto você amamenta, além daquele cheiro inesquecível de bebê, da imaginação sem limites e dos diálogos impagáveis depois que o bebê vira criança. A maternidade tem muitos lados, mas o mais importante deles é mesmo esse amor maior que tudo.

Não queria fazer um post longo, mas não deu (nunca consigo). Mas meu recado hoje nem é tanto para as mães, mas sim para os filhos desse mundão de meu Deus. Tratem as mães com empatia e gentileza todos os dias. Perguntem como elas estão, se precisam de ajuda. Abracem. Beijem. Liguem quando prometerem. Essa homenagem que vocês sempre fazem no Dia das Mães é legal também, mas o essencial é aquele tijolinho diário de amor que vocês vão construindo. Minha mãe já não está mais presente nesse mundo, mas eu, como filha, de vez em quando, penso que deveria ter feito mais todas essas coisas que falei, porque ela merecia, porque ela enfrentou o mundo por mim e pelos meus irmãos, porque ela foi forte quando fraquejamos, porque ela moldou nosso caráter, nos deu bagagem emocional para aguentar o tranco dessa sociedade tão desprovida de empatia. Eu deveria ter agradecido mais, agradeci pouco.

Mas, acho que ainda vale: Mãe, onde você estiver, saiba que você foi, é e sempre será meu lar, minha referência, o primeiro mundo que eu conheci.

Feliz todos os Dias das Mães!!!!!!!!

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