Quem cuida da mãe?

 

 

Mãe

Vou começar o post com uma confissão: o que me assustava nessa ideia de ser mãe, lá atrás, quando eu era jovem e serelepe, era perder a minha individualidade para sempre. Pensar que eu não ia mais conseguir tomar decisões por minha conta e risco, nem ficar de pernas para o ar lendo um livro por horas, nem sair com minhas amigas para tomar sorvete, sem medo do horário, eram coisas que me afetavam. No entanto, cá estou: mãe. Já há mais de 1 ano ou quase dois, se contar com a gravidez (nunca sei se grávida pode ser considerada mãe. Eu acho que não. Grávida é meio que um estado à parte).

Acontece que a Valentina passou a existir para mim e eu tive que realinhar essa minha ideia de individualidade. Mas não sabia que junto com um filho vinha tanta pendência afetiva. Tantos dilemas, medos e desafios sem tamanho. Ser mãe é para os fortes. As pessoas até reconhecem que é um trabalho difícil, que mãe é demais, que mãe é amor e tudo mais. Mas poucos são os que param para pensar na mãe como pessoa. É sobre isso que vou falar hoje. Sobre a invisibilidade nossa de cada dia, sobre a solidão materna, sobre a perda da individualidade. Mas não chorem comigo. Serei otimista. Esse não é um post triste, é reflexivo. É como se fosse meu abraço maternal para todas vocês.

Reparem numa mãe que acabou de ter um bebê. A casa cheia de visitas. O bebê angelical no berço ou no colo. Às vezes, um companheiro ali do lado, às vezes, não. O estado da mãe por fora é um pouco aéreo. No entanto, ela conversa com todos. Agradece pelo filho, diz estar cansada, mas tudo bem, é assim mesmo. Essa é a visão de fora.

Mãe desenho

Oi, tudo bem! Eu sou mãe e esse meu sorriso pintado não sai de jeito nenhum!

Agora quero que vocês mergulhem comigo no alma dessa mulher (sim, profundidade pura). Dentro dela, tudo está uma bagunça. Ela não está cansada, está exausta. Ela questiona tudo e todos, inclusive se foi certa essa escolha (ainda que não tenha sido exatamente uma escolha). Sente algo nela muito forte começando a existir. Sente tristeza. Raiva. Medo. Sente, sente, sente. Olha os outros como se fosses visitantes de outro planeta. Nem ela mesma se reconhece mais. Até a casa dela parece que é outra. E o bebê clama por cuidados. E ela não tem tempo de elaborar tantos sentimentos diluídos e contraditórios. Daqui a pouco vem a fralda suja, o choro, a cólica, o banho.

Isso acontece com todas, posso garantir. Não fiz nenhuma pesquisa, enquete, estatística. O que estou dizendo é real, pois sou mãe e mães são parecidas, muitas vezes. O período imediatamente posterior ao nascimento de um filho (falei disso aqui também) é um caos emocional no coração materno. A mulher mal sabe como é o modus operandi de ser mãe, e já é obrigada a lidar com toda essa revolução interna, tendo ainda que suportar uma solidão profunda e uma invisibilidade nunca antes experimentada.

Sim. As pessoas amam as mães. Mas como aqueles seres alados, com super poderes, que não reclamam, não se incomodam, fazem mil coisas ao mesmo tempo e tudo bem. Poucos são os que reconhecem o ser humano que reside em cada uma delas. A partir do momento em que o bebê nasce, as perguntas são todas sobre ele. As cobranças são todas para que a mulher seja uma mãe maravilha. Os palpites – além de chatos e desnecessários – são todos para mostrar que ela mal começou e já está errando.

Ignorar

Olha o que eu faço com os palpites…

Agora, vem a pergunta capciosa: quem pergunta para a mãe o que ela sentindo? Como está, se precisa de alguma coisa (com sinceridade, sem aquela frase vazia dita só por educação), se quer ir ali tomar um ar fresco, se precisa de um momento para, sei lá, lavar o cabelo, ler uma página de livro, assistir um seriado? Poucos são sensíveis a esse ponto. E não estou falando aqui de gente lá de fora, conhecida. Estou falando da família. Estou falando dos mais próximos, principalmente, o pai. 

Ah, o pai. Essa figura que poderia ser como um amparo emocional da mãe, um parceiro de responsabilidades, a mão amiga que não deixa a peteca cair. Infelizmente, a realidade de muitas famílias ainda é da mãe que assume tudo o que diz respeito à criação e educação da cria, enquanto o pai cumpre o papel de coadjuvante e tudo bem. Juntos ou separados, não importa. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. No entanto, há muitos séculos têm sobrado para a mulher toda a responsa.

Acompanhar o crescimento e desenvolvimento das crianças é uma coisa linda. É ver a vida funcionando. É alegria. É amor que move o mundo mesmo. Mas é extremamente exaustivo, principalmente, quando a mãe não tem muita ajuda. Por isso, muitas delas, acabam se anulando, deixando de fazer o que gosta, pensando sempre no filho e nunca nelas. Por isso, muitas delas parecem que estão sempre estressadas, cansadas, a ponto de entrar em colapso. Parece porque é. De vez em quando, a tarefa pesa igual chumbo.

Mas, lembra lá em cima que eu disse que esse não será um post triste, pois então. Quero falar que toda essa falta de compreensão e empatia dos mais próximos não pode servir para a mãe aceitar esse discurso machista e raso. Mães são pessoas. Mães precisam ser tratadas como iguais. Como alguém que cansa, que chora, sente raiva, medo, que quer colo. Daí entra aquela pergunta do título – E quem cuida da mãe? Elas também precisam de um olhar amigo, da generosidade alheia, de tempo para comer com calma, para tomar banho, para cuidar de si mesma. Elas precisam que alguém as ouça, que alguém as elogie vez em quando e diga que sabe o quanto ela se esforça. Mãe precisa do outro. Não é um robô cuidador que desliga o botão de sentir e tudo bem.

Gato desliga

Sou um gato, que fique claro!

Dado o recado para os outros, agora quero falar com você, mãe. Qual foi a última vez que você fez algo assim que gosta muito? Que conseguiu ficar um pouco sozinha só pensando na vida, de pernas para o ar? Qual foi a última vez que você fez planos para si mesma? Que leu um bom livro ou assistiu um filme? Quais são seu planos para os próximos anos? Algum deles envolve você ou são todos para seu filho?

Você, mãe, precisa saber de uma coisa: as pessoas podem continuar te tratando como a mulher maravilha, munida de uma linda capa de invisibilidade. O que importa é a forma como você vê isso.

Crítica

Esse post está muito auto-ajuda. Mas prossiga…

VOCÊ precisa enxergar como legítimas as suas necessidades, VOCÊ precisa se organizar para dar conta de cumprir todas as funções sociais que tem, VOCÊ precisa dialogar com os mais próximos, na boa, e contar a grande novidade de que precisa da ajuda deles. VOCÊ precisa se cuidar, se amar, se aceitar. Não aceite que as pessoas anulem quem você é. Continue sendo, por sua conta e risco. Só assim você vai ser feliz e fazer seu filho feliz também. Crianças precisam de energias boas e nós só conseguimos transmitir isso se estamos em paz internamente.

Se você tem alguém que cuide de você, peça colo mesmo. Delegue. Dialogue. Se não tem, pense por cinco minutos: não tem mesmo? Todas nós temos aqueles mais chegados que podem ajudar. Basta pedir com carinho. Quando estiver sentindo que vai entrar em pane, peça socorro. Não é vergonha nenhuma.

Em todas as circunstâncias, aprenda a ouvir a si mesma e a respeitar quem você é. Você vai ser mãe para sempre, mas para dar o amor que seu filho merece, você precisa existir nessa vida. Não aceite que te anulem, nem que te tratem como se você não tivesse fazendo mais que a obrigação.

Outro conselho que dou: Diminua um pouco as expectativas. Sim. Todas nós queremos aquela casa limpinha e cheirosa, mas se você tem um bebê e não tem ajuda, não vai conseguir dar conta de deixar a sua humilde residência brilhando, enquanto você cuida da cria e trabalha fora, eventualmente. Menos é mais. Mantenha sim um nível razoável de organização, mas não pire com isso.

Por fim, faça tudo com bastante amor e paciência. Acredito que essas são as palavras chave de uma boa maternagem. Sei que ainda não estamos no Dia das Mães, mas já deixei aqui meu recadinho para todas vocês. Somos engenheiras de um futuro melhor, mas saiba de uma coisa: viva cada momento desse seu presente sabendo que a troca que a maternidade proporciona pode te fortalecer muito como ser humano – tudo é uma questão de querer. Sintam-se abraçadas!

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