Bebês sentem falta do útero – entenda por quê

Recém nascido

Hoje vou falar sobre o quarto trimestre de gestação.

Mas, Cíntia, como assim? Até onde sei são três trimestres, sendo nove meses ou, no máximo, quarenta e duas semanas. Estou errada? Meu bebê nasceu antes do tempo?

Não. E sim. Peraí, vou explicar.

É claro que não existe, em humanos, uma gestação de 54 semanas. Coitada da grávida se isso acontecesse. Chegaria no final da gravidez sem um pingo de ar.

No entanto, bebês humanos nascem antes do que deviam, digamos assim, em comparação com outros mamíferos. Já notaram que girafa, cavalo, cachorro, gato, todos esses filhotes já nascem andando e nós não. Que em questão de dias todos eles já estão saltitando e fazendo todas aquelas coisas gracinhas que filhotes fazem. Que dali há pouquíssimas semanas lá estão eles completamente independentes de suas mamães. E nós ao nascermos nem visão temos direito, que dirá andar e saltitar por aí. Pois então. Isso acontece porque continuamos nosso desenvolvimento cá fora. No mundão.

Daí você pode me perguntar: mas então deveríamos ficar mais tempo na barriga das nossas mães! E eu respondo – Você não está lendo meus posts, pois disse isso lá no comecinho.

O que não nasce totalmente desenvolvido no bebê humano é o cérebro, pois nós somos os mamíferos mais cabeçudos: nossos cérebros são grandões para caber toda nossa inteligência e desequilíbrio emocional (sim disse desequilíbrio de propósito, a humanidade me irrita, vez em quando). Agora imagine já nascer com um cérebro completamente desenvolvido, grande, robusto, brilhante.Lembrando que no primeiro ano de vida, o cérebro do bebê humano cresce cerca de 101%. Isso mesmo. Dobra de tamanho! (Essa informação eu consegui no site Enciclopédia da Criança).

Me diz se teria como a coitada da grávida aguentar passar por um parto desses? Não dá.

Mulher cansada

Sim. Dá. É claro que é possível!

Isso explica porque nossos bebês nascem COMPLETAMENTE dependentes. Esse período que o neném precisa terminar de desenvolver o cérebro para ter o mínimo de independência é o que alguns estudiosos chamam de quarto trimestre de gestação. É com cerca de nove meses que o bebê começa a engatinhar ou ensaiar os primeiros passinhos, ou seja, inicia-se o processo de tornar-se menos dependente. Antes disso, o que ocorre é uma espécie de exterogestação, ou, trocando em miúdos, uma espécie de gestação externa.

Nesse período, do nascimento até por volta dos 9 meses, o bebê precisa ter um ambiente que se aproxime o máximo possível do útero. Lembre-se que a vida intrauterina do neném era rica em barulhos (a rádio que sintoniza por lá é coração  e intestino de mamãe, 24h por dia), movimentos (já que o bebê é sacudido para lá e para cá o tempo todo); além disso no útero o bebê tem pouco espaço, vive no apertadinho, sugando e brincando com o próprio corpo, principalmente os dedinhos, o dia todo.

Daí, quando ele nasce, tem um espaço enorme que o incomoda profundamente, há muito barulho também, mas de sons estranhos a ele, e não é mais possível tocar o próprio corpo, já que bebê nenhum nasce com essas coordenação. Além disso, é uma quantidade de gente querendo tocar, apertar a bochecha, falar com voz de pato. Há também aquele mar chamado berço, que bebê nenhum curte nunca, e muito menos no começo. Aquele cheiro, voz e calor conhecidos, da mamãe, não estão mais à disposição o dia todo. Ele sente fome, frio, dor, angústia. Todas sensações que não existiam quando ele era um feto feliz.

É. Não é fácil ser bebê. E ainda há quem diga o contrário.

Falar

Agora, por favor, preste atenção, pessoa que pensa assim. Isso definitivamente não procede. Ser bebê é difícil demais. É como se até então ele habitasse em um planeta e do nada vai parar em outro, onde sente coisas que não sabe nomear e conta nos dedos as vezes em que se sente em casa novamente, sem ser incomodado (quando está com a mamãe, evidentemente). Fora que a própria experiência do nascimento já é um sofrimento para ele.

Por isso, por precisarem de amparo emocional e total dedicação para se desenvolverem bem e serem saudáveis não só fisicamente, mas também emocionalmente, é que os bebês precisam de delicadeza, de contato, de pele, de cheiro, de movimento, de aconchego, de carinho, de leite em livre demanda, de sucção não nutritiva (lembre-se que ele sugava o tempo todo no útero). Bebê precisa de mãe perto, em suma.

Em outras culturas, principalmente as orientais e tribais, é comum a mãe andar com o bebê para cá e para lá, o tempo todo, no colo. Bebês, nesses lugares, quase não choram e nem sabem o que é cólica. Isso é fácil de entender: eles estão “no lar” deles sempre. Estão seguros. Estão vivenciado cá fora um pouco do que o útero foi para eles. No entanto, nós, ocidentais, estamos afastando cada vez mais o bebê da mãe e cada vez mais cedo. Isso não é bom!

Laura Gutman (olha ela aqui de novo), fala sobre isso no livro que já referenciei umas trocentas vezes nesse blog: “A Maternidade e o Encontro com a própria Sombra”. Ela fala que, principalmente, nos dois primeiros anos, há uma relação fusional entre mãe e bebê. Ambos compartilham sentimentos, inclusive, pode aparecer no bebê, de alguma forma, algo que está escondido nos recônditos da alma da mãe. E que é necessário que ambos estejam sempre em contato e sintonia para que o bebê consiga viver essa fase plenamente, para então passar para as próximas. A autora fala, inclusive, que se o bebê não tem as necessidades básicas atendidas (e básico é muito mais do que só dar alimento, agasalhar ou ver se está com dor), ele pode “cobrar” essa fase nas próximas. Inclusive, todas nós conhecemos vários adultos que são bebezões. Não é, não? Falo disso melhor em um outro post.

Esse acho que terminei.

Ah, se vocês quiserem saber o que pode ser feito para o bebê sentir-se mais acolhido nos primeiros meses, dá uma olhada nesse texto aqui. Tem dicas bem legais.

Até a próxima!

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