A mãe estava lá

Mãe e filho - Pixabay

Maria pega  o filho na escola. Clara faz as refeições com seu bebê de 3 meses no colo. Joana vai ao médico levar a filha que adoeceu. Em comum, a maternidade e uma dor intrusa, que não deveria estar ali. Elas são mães, amam suas crias, mas sentem falta de algo ou alguém que também deveria estar ali. O pai. Não importa se ele foi embora, mudou ou vem vez em quando, no dia a dia ele nunca está lá e é isso o que dói. A frustração de ter a felicidade nas mãos, vestida de criança e não poder dividir com aquele que deveria ser o maior interessado, mas não é.

É sim uma função cansativa essa tal maternidade, mas a rotina traz o alento, da mesma forma que o cansaço. Do mesmo lugar que vem o choro às três da manhã vem o sorriso escancarado depois de um reencontro. Naquele corpinho moram as exigências de dormir no horário, mamar em livre demanda, tomar banho diariamente, cuidar da comida que entra, levar no médico, comprar fralda, roupa, sabonete, brinquedo. É o mesmo corpinho que gargalha pela primeira vez, faz cara de interrogação, engatinha com medo, dá os primeiros passinhos, come sozinho, faz festa no banho, grita, pula, fala da, ba, gui, má.

O cansaço da maternidade não é exatamente negativo. É somente o corpo da maẽ dizendo “Peraí, também sou humana!”. E é dele que sai aqueles pensamentos de que mãe solteira não tem vida social, não tem direito de namorar, e vai viver a vida toda recebendo olhares tortos de desconhecidos. No entanto, tudo isso é pouco, dá para levar, afinal todo mundo tem sua fatia de sofrimento nessa vida. Mas o que incomoda nesse papo de fazer tudo sozinha pelo filho é a dorzinha estranha de quem não pode compartilhar.

A mãe está lá acompanhando tudo. Mas não consegue dividir. Não com a outra metade da criança, esse tal de pai que deveria estar curtindo ver o bebê fazendo várias coisas pela primeira vez e não sabe quando, nem como tudo isso ocorre.

Ele deveria olhar a criança, enquanto a mãe toma aquele banho demorado que todo ser humano tem direito algum dia. O pai deveria estar dando a papinha, enquanto a mãe consegue a façanha de ter as duas mãos livres para comer com tranquilidade. O pai também poderia  levar no médico, enquanto a mãe perde um tempo fazendo a unha, o cabelo, lendo um livro ou não fazendo nada. Afinal de contas, vale lembrar, mora nela um ser humano. No entanto,  no dia a dia a mãe tem que enfrentar a rotina ocupadíssima e a solidão das noites em que tudo o que ela queria era falar da criança com alguém que é metade dela.

Contar que a filha dorme assim e assado, que tem mania disso ou daquilo, que ensaia as primeiras palavras, que já para em pé sozinha. Quer ver?

Não ele não quer ver. Em algum momento da história desse mundo, estipularam que a mãe deve fazer tudo e não reclamar e o pai deve ser poupado dessa tarefa feminina que é cuidar de criança. E hoje ele, o pai, usa desse subterfúgio para aplacar sua covardia. Passa pela cabeça da mãe: será que ele não sente falta? Talvez sinta, talvez não. Mas tenha em mente: ele não vai fazer nada a respeito. E as pessoas em volta vão entendê-lo, mas não a você. Lide com isso, lembra que foi assim que a história sempre aconteceu?

Sua filha ou filho vai fazer 3, 5, 7, 10, 15 anos e a lógica seguirá assim. A mãe está, o pai, quando pode ou nunca. Não importa se a criança vai crescer com essa rejeição e nem de que forma ela absorverá isso, o pai não quer saber. Tem um mundo à parte, onde o filho não entra. E a mãe fica pensando que só queria que ele, vez ou outra, incluísse o filho nos planos de ano novo. “No ano que vem, vou dar mais atenção para o meu pequeno”; “No ano que vem, serei um pai melhor”. Por que ninguém pede isso? Será que alguém já pediu alguma vez?

E o que a mãe – sempre sozinha na criação e cuidado do filho – pede quando vai dormir? Provavelmente para ter mais força. De vez em quando, parece que a carga é pesada demais para ombros tão estreitos. Maria, Clara, Joana. Devem ter se cruzado tantas vezes, mas nem sabem o quanto têm em comum com as outras. Maria, Clara, Joana. Na solidão do quarto, depois que o filho dormiu – enfim – elas pensam na felicidade que é ser mãe e na dor que é ser sozinha. Não importa se tem namorado, noivo ou marido. O pai é aquele outro. Fazer o quê?

Parece triste, desanimador. Mas a solidão da mãe, nesses momentos, sempre encontra alento ao olhar aqueles olhinhos pequenininhos, derramando amor e transbordando sentimentos. Eles, os filhos, sempre vão reconhecer que era ela e não o pai que estava ali, de verdade. Que era ela que dava o amor, de fato, já que amor é convivência e o pai disse não. A justiça do tempo dará o conforto e a certeza de que por mais que não exista certo e errado nessa história toda, está com ela a paz interna de saber que o mundo pediu mais amor e lá estava ela.

Anúncios

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s